Foi estranho para os pais de Ricardo, quando o filho, após assistir Batman, em 1989, entrou no banheiro da suíte dos pais e começou a passar talco na cara e a se borrar de batom. A mãe foi ver o que ele fora fazer lá, pois não entendeu a pressa do filho, que nem deu um beijinho nela e nem falou sobre o filme.
- Ricardinho, meu filho, aconteceu alguma coisa?
E o garoto, trancado no banheiro, falou que estava tudo bem, só uma indisposição. Mas depois da demora, a mãe, preocupada, foi até o banheiro de seu quarto, devagar, e pelo reflexo do espelho viu que o filho se maquiava. Gelou, não soube o que fazer senão pensar no que houve de errado na criação dele para ele virar homossexual. Precipitadas conclusões.
Pouco tempo depois chega o pai, voltando do escritório. Ricardo Sérgio percebeu a chegada dele, viu que estava pronta sua máscara, correu pelo corredor até aparecer na sala e:
- Ráááá! Uhahaha!
O Coringa surgia naquele apartamento de luxo na nobre Ponta Verde da capital alagoana. Entre 17 e 18 anos, o estudante Ricardo se tornara o maior e mais doente fã de Jack Nicholson.
Isso preocupou os pais. Sempre fora um garoto com muitos problemas emocionais (não gostavam de falar que era um paciente psiquiátrico) e se envolvera com drogas muito cedo, embora estivesse, à época, mostrado certa recuperação após passagens em algumas clínicas e uma internação de 24 horas no Portugal Ramalho.
Seus “amigos” eram somente os fornecedores e compradores, aturava a galera do cursinho de vestibular e se afastara muito dos colegas e amigos do Colégio Santíssima Trindade, onde era o pivô do time de basquete. Era um cara muito inteligente, mas preguiçosos e, como percebemos, bem problemático.
Sem boas orientações, os pais acharam que aquilo era só uma brincadeira, uma extravagância. Quem gostou dessa nova fase de Ricardo foi o dono da vídeo locadora (que hoje não existe mais) perto da casa dele. Quase que o estabelecimento se especializou em filmes de Jack Nicholson. O dono conseguiu os antigos, que eram raros no mercado e sempre vinha com o lançamento. Muito embora tivesse que estudar muito para passar para uma faculdade, ainda pedia as coisas para o pai. Caso ele passasse, talvez recebesse seus desejos. Viu “Sem Destino” e quis ganhar uma moto. Viu “O Iluminado” e “Um Estranho no Ninho” e quis ser louco, louco mesmo. Chegou a se internar por conta própria no numa clínica psiquiátrica. Viu “O Último Magnata” em ser mesmo um magnata. A mãe, professora, até achou que ele começaria a se interessar por Literatura depois que disse que era um grande romance de Sinclair Lewis. Não era da vontade de Ricardo. Via os filmes que o cara da locadora lhe arrumava, às vezes com resultados de pesquisas que ele fazia.
Nós percebemos que não era uma relação saudável dele com seu ídolo. Quando trocou de time de basquete da NBA, de Chicago Bulls para Los Angeles Lakers, por causa de Jack, tentou voltar a jogar basquete. A disciplina lhe fez, finalmente, passar para Administração na Católica... de Recife, em 1994. Aí, sua vida foi o cabrobó.
Sempre morando sozinho, foi do Bairro de Damas, para Casa Amarela; morou em Piedade antes de se mudar para Boa Viagem, de frente para o mar, na esquina com a Carlos Pereira Falcão. Acompanhou a mudança do VHS para o DVD e também passou a comprar fitas e DVDs. A Internet melhorou suas pesquisas sobre as personagens de Jack.
Formou-se em 2000. Durante a faculdade era apenas engraçado ele ser um sujeito com Transtorno Obcessivo-Compulsivo a´pos ver “Melhor Impossível”; se preocupar com as invasões marcianas e achar que os serventes da faculdade e os zeladores eram marcianos; deixar a barba crescer, dizer que é lobisomem e querer namorar qualquer “galega” que visse pela frente. Tudo era engraçado e não teve problema algum em abrir uma empresa de empacotamento , congelamento e exportação de frutos do mar.
Qualquer psiquiatra, na primeira consulta, diria se tratar de um caso sério de esquizofrenia e, para o bom profissional, era um psicopata. Se ele se consultasse... Sua grana também vinha das vendas de coisas boas que todo mundo usa, continuando suas práticas em Maceió além da de painho. Mas a coisa ficou complicada depois que ele tentou roubar uma Harley Davidson após ver "Sem Destino" novamente. Em 2006 quis se internar de novo, mas lhe expulsaram do HPP, pois o caso dele, segundo concluíram, era de polícia. Nos cinemas estreava “Os Infiltrados”.
Tentou convencer o contínuo de sua empresa – que já caía pelas tabelas – a ficar observando os PMs para ver se eles não o perseguiam. Começou a ter problemas com impostos. Sua conta bancária não batia com seus gastos, com suas contas. Andava com problemas até que viu "Profissão: Repórter", que baixou da Internet. Recebera dele o aval para falsificar documentos.
Passou a abrir contas com identidades falsas, até que um dia, caminhando por seu bairro quando
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Olha o Semblante
Tem gente de todas as gentes, caras e expressões. Assuntos pertinentes, pretendentes aos nossos bilhões; desde as realidades insignificantes, às fantasias dos nossos semblantes.
Zelador
- Thiago Quintella de Mattos
- ...de repente, o que está aqui lhe apetece.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
BSB Crô. 1 – 2012: TRAJES*

Confiando na sequitude do Brasil Central, vesti camisa de manga curta e bermuda; e já me reacostumando aos endereços em coordenadas geográficas, o segundo dia do ano na capital federal foi dedicado ao conhecimento do local de serviço de minha namorada: Órgão Público –AJ, Setor Autarquias Sul Q 1 e 2, bem pertinho do prédio da AGU. Saída fácil do CCSW para pegar o Eixo Monumental e logo de frente encarar o Memorial JK e ver o cocuruto dos prédios gêmeos entre o côncavo e o convexo de nossas casas legislativas. Desde 1997 não os via.
Só que chovia fino e ventava como no Tropical de Altitude onde vivo. Como não sou de me arrepender do que vesti ao sair de casa, encarei minha desventura. Chegando ao prédio, entramos pela garagem. Cumprimentei um que ela cumprimentara, ajudei-a a estacionar como sói fazer um flanelinha diplomado e subimos pelo elevador até ao saguão onde se bate o ponto.
Versão moderna de O Processo, de Franz Kafka. Algumas almas de uniforme, engravatadas em borboleta e de terno preto. Faixas em paredes e portas: Conexão, Masculino, Almoxarifado, Feminino. Secretarias e secretárias. Vão central naturalmente iluminado, passarelas que ligavam o nada ao lugar nenhum, corredores obscuros, portas secretas seguindo a mesma textura de madeira das paredes, numa delas, de repente, eu entro. Assessoria Jurídica. Ali ela e sua amiga trabalhavam em pleno começo de ano.
Recebi a indicação de onde era o banheiro daquele andar. Fiz muito esforço para gravar o caminho de volta antes mesmo de ir. Voltei errando somente uma vez, arriscando-me a entrar em salas não autorizadas. Invadi a mesa de um funcionário, o que era permitido e, enquanto as duas discutiam valores tentei ler um conto do Octaedro, de Cortázar, desisti, escrevi três linhas:O que pode sair de uma vontade de escrever quando se está na Assessoria Jurídica, conforme indica o logotipo deste bloco? O melhor seria ler um conto de Cortázar, "Liliana chorando", mas está muito forte... voltarei à leitura. Tentei voltar a ler, mas o que devia fazer, como fiz, era dar uma volta pelo setor, à procura de um café, de bar, de algo inusitado.
Titubeantemente seguro, localizei a portaria e a ela me dirigi. No primeiro lance de escadas os olhares não eram amistosos. Funcionários da limpeza e outras almas miravam-me com espanto retido, com razão, pensei, pois não havia me identificado na portaria. Mas me fiz de gente boa e os cumprimentei com acenos e boas tardes; assim fui até à portaria, quando os engravatados que ali estavam interromperam o alegre assunto e voltaram seus olhares para mim.
- Opa! Boa tarde. – e saí.
O vento se tornava mais forte, desci as escadas em passos trêmulos, já sabendo que chegariam até Thiago QM e diriam que eu estava sob processo e deveria comparecer imediatamente ao tribunal. Foi questão de segundos, antes de acender meu cigarro um agente da segurança me avisou:
- Boa tarde.
Antecipei-me:
- Boa tarde, desculpe-me por não me identificar, estou na Assessoria do CNMP, minha namorada trabalha lá e...
Com uma delicadeza e polidez jamais vista por mim, ele avisa:
- Tudo bem, não há problema algum. Só pediria ao senhor que da próxima vez não viesse de bermuda. Será bom para todos nós (eles, da segurança) e para você. Pode voltar se quiser...
- Fique tranqüilo, não haverá próxima vez.
Avisei a ela pelo celular e quando o horário dela chegasse ao fim eu ali estaria. O que fiz virá em próxima crônica. Mas naquele dia, jamais voltei ao dito órgão público.
Brasília, 2 de janeiro de 2012.
* Mudei o título porque o anterior ameaçava alguma coisa.
terça-feira, 27 de dezembro de 2011
ERROS DE DIGITAÇÃO E SUAS POSSIBILIDADES SEMÂNTICAS

Seuquência em vez de sequência
- Ê Seu Quência! Tudo bom?
- Bom dia, meu fío, tudo jóia contigo, né?
- Tudo... E aí? Vai lá hoje?
- Que posso fazer? É o jeito... hoje teremos coisa nova lá, um samba que fiz para minha primeira namorada.
- Ih, Seu Quência, então é coisa boa!
- E muito velha, meu fío! Muito velha...
- Xô ir lá que já tô atrasado, Seu Quência, fica bem.
- Vai com Deus, vai lá pros seus estudos...
Compedia em vez de comédia
Como é de nosso conhecimento, a região da Compedia, atual interseção da Romênia, Hungria e Sérvia, foi um dos grandes centros comercias e culturais da Antiguidade, solenemente esquecido pelos historiadores gregos e também preterida pelos romanos. Entretanto, com as descobertas atuais do Departamento de Arqueologia da Universidade Hartsford Halerover, da Inglaterra, em convênio com a Universidade Nacional de Timisoara, da Romênia, emergiu-se uma série de recintos semelhantes, porém mais antigos, às grandes termas e piscinas que faziam parte do dia-a-dia da nobreza romana. E, veja bem, Timisoara é a terra natal do grande medalhista olímpico da era moderna (1924, Paris/1928, Amsterdã), Johnny Weissemuller, o Tarzan dos cinemas. Donde, assim, podemos ter indícios de que os ditos “incivilizados” já sabiam nadar bem e conviver com símios...
A~e em vez de aê (interjeição evocativa)
Sendo, pois A~e, C pode significar tanto o log de 18, em si, quando a potência de (4y.x) dentro de sua própria dicotomia concreta, for, aproximadamente a sua noção de posição no Real. A=e não implica a negação da equação supracitada; todavia, não deve ser entendida como uma razão real-abstrata de tudo aquilo que nós, professor e alunos (sem esquecer das alunas) conversamos no Bar do Lopes, antes da apresentação do samba do Seu Quência, nosso velho conhecido. Vocês lembram?
Itaipava, 27 de dezembro 2011.
domingo, 13 de novembro de 2011
PASSOS TRANSEUNTES

Em uma rua central de uma cidade periférica, um homem de bigodes caminha para sua casa: um apartamento no segundo andar de um edifício simples e antigo, controlando os passos como se o ar fosse rarefeito, ainda que ao nível do mar. Acabara de vir de uma consulta médica a qual muito resistia e que seu plano de saúde, precário mas caro, podia arcar. Descobriu ter o pulmão direito avariado pelo fumo. - Por que só o direito e por que não mostrara o defeito, digo, a doença, através das tosses ou das respirações forçadas? - tão forçadas e meticulosas como as de agora. No pequeno átrio do edifício, causa estranheza ao porteiro por ter sido cumprimentado celeremente pelo morador, incomum atitude de vezes anteriores.
O porteiro cumprira seu expediente e recebera parte de seu salário, a parte que o completava. Desce os dois degraus da entrada em apenas um salto e desmesuradamente trota pela calçada ocupando-se de separar as notas. Parte da féria vai ao bolso para as compras da casa e para a conta de luz, sempre um mês atrasada. A outra parte caberia à sua cachaça que, no bar mais próximo, pede-a junto com um refresco de maracujá. Durante o apoio no balcão, passaria algumas horas tentando gastar somente o reservado para seu luxo distraindo-se com as opiniões sobre seu time – tanto o da cidade de adoção quanto da cidade natal – que muitas vezes discordavam das visões do senhor de chapéu e camisa listrada. Visões estas que não as veria.
Este estava para findar suas doses de conhaque barato e uma garrafa de água tônica. Enquanto estava no balcão, não desgrudava os olhos de seu telefone celular, respeitosamente pousado à sua direita, alternando com a rápida averiguada nas notícias de um jornal popular que o bar gentilmente deixava à disposição dos fregueses mais assíduos. Estava calado e preocupado. As notícias, antes comentadas com exaustão, não passavam de confirmações de suas opiniões. Tentou se divertir com os quadrinhos e as manchetes frívolas da vida artística alheia, mas até essas não lhe despertaram nada. Um gole do conhaque, o último, seu celular toca e recebe as informações. Deixa o consumido para ser pago depois e corre para um orelhão porque nem quem o telefonara pode gastar muitos minutos do celular dele e nem o do senhor de chapéu e camisa listrada pode fazer ligações por causa dos créditos acabados. Apressado, arrastando os pés em passos curtos, chega ao orelhão e espera a moça estudante terminar sua chamada.
Antes de deixar livre o aparelho público – de maneira rápida – a moça estudante prende seus lisos cabelos em forma de coque firmando-os com uma caneta esferográfica, pega sua pasta do apoio do telefone, joga o cartão para dentro da pasta e, em seguida, a segura contra o peito. Espécie de proteção. Recusa o agradecimento-elogio do senhor de camisa listrada e chapéu. Anda olhando para baixo em marcha acelerada, parecia ir até à esquina. Raramente levanta os olhos senão para evitar um esbarrão. Durante o percurso, recebe galanteios oriundos do bar e de umas janelas, bem como é vítima de olhares de transeuntes criminosos. De uma dupla desatenta e pedestres, que ocupava toda a calçada, um pouco mais a frente, houve de desviar-se fazendo careta; destruindo sua beleza e deflagrando seu estado emocional. Desacelera e levanta a cabeça para a direita a fim de ver as roupas à mostra refletida em uma vitrine ordinária de uma loja antiga. Detém-se uns segundos com as pernas em entrepasso, os cabelos se soltam acidentalmente ocupando-a de outro dever e, logo, torna a seu percurso. Antes da esquina há um ponto de ônibus e ali se estanca. Ela refuga um vale-transporte que lhe é oferecido por um jovem de camiseta azul, alegando que não pegará ônibus algum. Decerto não, pois enquanto o jovem ainda oferecia o mesmo aos outros, ela entra no carro que acabara de parar em frente ao ponto, este guiado por alguém não identificado.
O jovem de camiseta azul continua a oferecer vale-transporte em troca de seu valor em dinheiro a cada um que chega ao ponto de ônibus. Parte de seu salário é composto por estes vales que vêm em quantidade maior que sua necessidade de se locomover pela cidade. Até porque estava em vias de conseguir um carro, bem usado, é verdade, mas seria dele em uma oportunidade de ouro, um ouro que ainda lhe faltava. Conseguiu “vender” um bom número, talvez. Foram-lhe solidários e, mais uma vez, verdade seja dita, não custa nada comprar vales-transportes e não necessita deles. Mantém-se na espreita à espera de novos compradores em potencial. Em quase meia hora, de tanto andar para lá e para cá no pequeno espaço do ponto, poderia ter percorrido uns três quilômetros. Parecia um tanto ansioso, talvez não tivesse chegado à sua cota desejada. Viu-se isso quando quis vender um vale a uma velhinha que saíra pela porta da frente do ônibus. Ademais, ela é isenta de pagar tarifa de passagem, ou seja, tem passe livre.
Ela toma a rua carregando toda a dificuldade que a avançada idade lhe atribui, além de um pequeno embrulho. Vai no passo que lhe convém, nenhuma variação aparente. Apesar de inclinada para baixo, levanta astutamente seus olhos para evitar esbarrões. Uma lentidão que pode incomodar os apressados. Somente uma vez verificou se o embrulho estava bem fechado. Vai que ele se abre de repente!, esses papéis de hoje em dia não valem nada. Da última vez foi cebola para tudo quanto é lado, sorte que acontecera na frente do edifício, o mesmo edifício simples e velho, onde ela agora chegou. Não vê porteiro algum que lhe auxilie. Vai por si mesma à porta do elevador. Pesada, abre-a com dificuldade e aperta o 2. No embrulho, está um nebulizador que pedira emprestado a uma amiga coetânea, pois percebera que seu filho tossia muito nas últimas semanas e, teimosa, torcia muito para que ele tivesse ido ao médico. Pode ser que o nebulizador lhe a ajude a se curar. Quem atende a porta, depois de tosses, é um senhor de bigodes.
Petrópolis 2004 - revisado em 13 de novembro de 2011.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
SE

Do Novum Organum, de Francis Bacon, a Teoria dos Ídolos foi a que mais me apeteceu. Não só na obra do grande pensador, como em todo o Empirismo.
Destaco que, no Idola Tribus, o ídolo só é ídolo se for o seu. Ou seja, se aquele é seu ídolo, ele só o é se se corresponder com aquilo que você o acha que é. Fora disso, nada ou ninguém (ídolo) é.
Num banheiro do aeroporto Santos Dumont, aliviava minha bexiga quando vi um cara que chegava rapidamente a se aliviar em um dos mictórios. Ruivo, meio calvo. Ninguém mais, ninguém menos que Nando Reis. Eu gosto muito do trabalho dele, tanto nos Titãs quanto no trabalho dele mesmo. Isso era por volta de 2002. Urinávamos. Ao fim de nossa função fisiológica, cumprimentei-o com um gesto de cabeça. Do tipo: Fala mermão. (Eu me achando também um “ídolo). Ele retribuiu. Agreguei: “Gosto muito de seu trabalho, tanto nos Titãs como na carreira solo”. Muito obrigado, ele respondeu. Cada um lavou as suas mãos (em trabalho solo) e nos despedimos.
(Mas por que tô falando isso mesmo? Ah! Por causa dos ídolos. Pois bem)
Eu e um grande amigo, no pacato bairro de Nogueira, em Petrópolis, decidimos variar um pouco a nossa vida e... beber cerveja. Não sei se o dia era especial, mas queríamos beber cerveja. Discutimos quanto ao número das caixas de cerveja. E, depois de bebermos certa qualtidade, tivemos que comprar mais (caixas de cerveja). Fomos a uma padaria-delicatesem (= a muito dinheiro). Ainda não anoitecia.
Naquela contagem de dinheiro – já dentro do estabelecimento, para ver o quanto poderíamos gastar e continuar ouvindo nosso rock, reggae e punk – um barulho de carro antigo dominou o bairro. E logo parou. Não ligamos tanto para isso. Entretanto, no meio dos cálculos, surge um baixinho, negro, cabelos dreadlock; afoito e simpático. Conversando com todos os 3 ou 4 (fora os donos), que lá estavam. O novo freguês chegou ao balcão, comprou umas empadas. Partiu, assim como chegara.
Eu e meu amigo nos entreolhamos. Meu amigo quase a gargalhar e eu a não entender o porquê das iminentes gargalhadas. Até que percebi.
Djavan, O ídolo
Depois de nos cumprimentar, se foi. E nós, enquanto levávamos as cervejas para o carro, lamentamos pela humanidade.
“Quantos gostariam de estar em nosso lugar agora...”
Petrópolis, algum dia da década de 2000.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
FINDO O LABIRINTO
Agora é simples...
Mas é atividade que ainda há de se pensar, de se concentrar; de não poder dar bobeira.
Esquina da Alberto Torres com a Judith de Paula alguma coisa ou de alguma coisa de Paula. A rua não importa em certas localidades porque aquela é a rua do Hospital. Que hospital?, podem perguntar. “Do São José”, respondem, porque o outro, ora bolas!? é o HCT. Virou ali, atravessou o sinal, já está lá, basta esperar e ver a entrada. Entrada de pedestres; Pedestrian Entry (para quem, porventura, quiser falar ou já falar a língua de lá).
Sobe o caminho, em forma de ladeira em pedregulhos, sem escadaria, a fim de facilitar a vida dos que não conseguem dar os passos. Vê-se os resquícios das obras que ainda modernizam a instituição da Saúde, e logo se está na cantina. “Café com leite... isso média, na xícara. Pão de queijo já saiu? Então, um misto. Como é misto em inglês? Ih, não sei, mas se falar ham and cheese acho que entendem. Sanduíche é sanduíche mesmo, basta falar diferente.”
Vira-se para as entradas principais, sendo que, ignora-se as duas primeiras à direita – não confudir! Parecem uma, mas são duas. RECEPÇÃO 2. Mais para lá é a Emergência, não necessária no então. Assim, entra-se à direita, pronto: cadeiras para a espera dos visitantes. À direita se dispõem as cabines das operadoras de telefonia, à esquerda o balcão dos que controlam o ir e vir dos que ali visitam, a não ser o “Ah! É você, professor?”
- Oooopa, tudo bom? Ó, o meu crachá, hein? Cadê? Se não o pessoal me barra.
Coisa que não aconteceu e nem acontecerá mais, espera-se.
Pouco mais adiante, a porta de entrada – que do lado de dentro, ao abri-la, está escrito SAÍDA. Sobe-se o primeiro e único lance de escadas que se descobre e se chega a um patamar. Direita? Não! Para lá é a capela e outras coisas. Segue-se, pois, para a esquerda, passa dois corrimões que medeiam dois pequenos lances de degraus para se estancar em um mero hall. Aquele elevador, à direita e que não mais está em manutenção, é a referência. Olha para ele e depois mais para a direita (não se iluda com as placas que informam PEDIATRIA B, ADMINISTRAÇÃO e outros), percebe-se a mudança de arquitetura (uma arquitetura ainda idealizada por Dédalo). Avança-se.
As rampas à esquerda podem iludir. Contudo, direito e reto para a direita, ainda que não se creia que se encontre uma rampa em declive ali. Cheiro de higienização e refeitório, é por ali mesmo. Haverá outra bifurcação. Na soleira, acima, está escrito, sobre um fundo amarelo fluorescente: TETO BAIXO. É suficiente, depois de ler esse aviso, virar a direita, depois à esquerda. E lá se chega ao auditório. Dali para dar a aula aos queridos alunos é questão de minutos. E também outra narrativa, deliciosa narrativa.
Simples agora, mas antes...
Teresópolis, 22 de agosto de 2011.
sábado, 6 de agosto de 2011
IRA

Acho que faltou o artigo definido ali no título. Falarei da ira, do pecado capital. Seria melhor A Ira, para não confundirmos com o Exército Republicano Irlandês ou com a banda IRA!, que também renderiam bons temas.
Desfiaram a ira contra mim. Não muitas vezes, mas em número considerável para que eu notasse o semblante de ódio, rancor e até de iminente vingança do ou da atendente de lanchonete quando eu recuso o refresco ou qualquer bebida que supostamente acompanharia meu salgado ou sanduíche. Lançam-me um tsc aspirado, de enfado e revolta contra as idiossincrasias da humanidade do hoje-em-dia atual.
Uma vez, não faz tanto tempo assim, após recusar o líquido, recebi uma chance de mudar minha ideia, de reconsiderar as coisas, pois a moça estava com o predicado da tolerância ativo.
- Não vai beber nada? Tá na promoção...
Recusei de maneira simpática, como não seria diferente, com sorriso; e ela, devolvendo o copo ao escorredor da pia, catapultava-me ares de deboche e lamento misericordioso.
Entretanto, a ocasião na qual me senti mais ameaçado foi numa movimentada padaria na Mariz e Barros, na Tijuca, não sei se na esquina com a Ibituruna ou Campos Sales. Muitos concursandos para o Instituto Rio Branco escolheram aquele estabelecimento.
Assomei-me ao balcão, olhei a vitrine e, antes de escolher, Maximilian Schell, saiu do Dossiê Odessa para me servir na Tijuca. Se não era ele não sei mais quem poderia ser. Esperava ele meu pedido:
- De que é este pastel de forno?
- Frango.
- Me vê um, por favor?
- Vai beber o quê?
- Nada.
Por trás daqueles óculos, entre aquelas rugas, atirou-se-me vetores munidos de uma ira jamais presenciada por mim. Durou alguns átimos até ele mudar a face: amarelou o sorriso surgido, buscou algumas gotas de pachorra, fingiu que não me ouviu e sugeriu:
- Laranja com acerola... abacaxi com hortelã... guaraná natural? Hein?
- Nada não, amigo, muito obrigado. Só o salgado mesmo.
- Um e cinquenta. Tem que pagá no caixa antes.
Quando recebi minha provisão, jogada em uma liteira de guardanapo ordinário e untoso, a cara do Maximilian Schell era de um sôfrego consentimento. Demonstrou a decepção diante da estupidez e ignorância, que ainda se abatem sobre a maioria dos seres humanos.
Teresópolis, 3 de agosto de 2011.
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