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domingo, 5 de maio de 2013


FEIJÃO: DO COZIMENTO AO PLANTIO

- Aí, vou fazer um feijãozinho pro nosso almoço.

 Comunicou-me o Jorginho, colega de casa. Além do feijão, arroz e uma farofa bem incrementada de farinha e sal. O alho triturado em nosso triturador manual giratório ficaria dividido para o arroz e o feijão. Nosso café da manhã tinha sido só café; e vinha sendo isso nosso alimento até ele decidir fazer o almoço.

 Achei que ele tivesse me convocado para cozinhar esta tradicional iguaria de nosso país. Faltava isso para eu me certificar um brasileiro. Já fiz samba e sambei; já joguei futebol que, em determinado período, até que o fiz bem; elaborei muitas caipirinhas; sei de quem sou filho na religião das forças da terra. Entretanto, jamais havia me motivado a fazer um feijão embora soubesse que, cedo ou tarde, haveria de fazê-lo.

 Não foi dessa vez. Ele somente me comunicou. Assumiria todo o fazimento de nossa principal refeição do dia, digo, da semana. Continuei o que fazia, escrevia enquanto conversávamos em dois diferentes ambientes: ele na cozinha e eu no meu quarto. Preferi, depois, dispor-me a ajudá-lo, em prontidão, sentado à mesa da cozinha, bebendo café e fumando.

A panela de arroz estava esquentando. Ele escolheu uma das penelas de pressão que a casa oferece, a mais detonada das duas detonadas que tínhamos naquele então. Reclamou que as panelas antigas não vinham com o medidor de volume d’água e que teríamos que ir pelo olhômetro. Teríamos? Nós! Quer dizer que estava oficialmente incluído na empreitada. Senti-me honrado e necessitava recordar alguns de meus conhecimentos empíricos adquiridos em anos de despretensiosas observações. Permaneci sentado, no entanto.

Um simples corte na ponta do saco de feijão deu o duto para os grãos serem despejados naquela quantidade tal de água. Havia uma confiança extrma naquela marca de feijão a ponto de desprezar a seleção dos grãos defeituosos e eliminá-los. Uma pequena dificuldade natural para fechar a panela, enfiar o pino em seu local apropriado e levar a mehlor parte de nosso almoço ao fogo. Emprestei meu isqueiro para acender fósforos já queimados os quais haviam sido guardados exatamente para essa função. 
Tudo isso ocorreu pouco antes das dez horas da manhã, desse modo, restou-nos esperar o vapor ser liberado sensivelmente pelo pino e deixar os grãos cozinharem à vontade. Cada um foi para seus respectivos aposentos para outros afazeres. Eu pus música no computador, ele foi ver televisão. Em não menos de dez minutos reaparecemos à cozinha, juntos, com olhares de preocupação e dúvida, alternando-os para a panela e para nossas faces. O vapor que deveria sair não saía, de lugar nenhum. Ele estava ajudando a panela a trepidar; perigo!

 Nossas hipóteses pululavam tais quais os feijões: “o que estava errado?” “Deve ser muita água”, “o pino pode estar entupido”, “ainda não deu tempo para ele funcionar”, é a quantidade estúpida de feijão que pusemos!”. Ficamos com essa como a mais crível. 


Sabendo que a culpa era nossa embora não a assumíssemos verbalmente, culpamos a panela. Contudo, mesmo apagando o fogo, havia o risco de explosão durante o caminho do fogão à pia e, também, o da abertura da panela. Soube, mediante o cinismo dele, que era a primeira vez que ele assumia o comando de uma panela de pressão. Evitarei transcrever os palavrões de minha revolta aqui. Fiquei, além do mais, decepcionado. Nessa hora, todo nossos conhecimentos tiveram que se unir para evitar a tragédia. Mas ao pegar a panela, ela já estava bem mais calma, menos saltitante, bom sinal. Eu juro que nesse momento tocava “Smoke on the Water”, do Deep Purple, mas não desejava “fire in the sky”, fogos no céu, não.
Ainda durante o processo de amenização do comportamento da panela, lembrávamos, mentalmente, do histórico de acidentes horríveis ocasionados por maus usos da panela de pressão. Coisas que fazem parte do folclore de toda criança. Ele começou a expor suas reflexões:
- Pô, minha mãe disse que se isso explodir... 
- É – interrompi – minha mãe também tem uma vasta gama de relatos trágicos em acidentes com essa p...

 E o maior risco era nós não estarmos vivos para contar mais um capítulo dessas tragédias, mas faríamos parte dos casos trágicos. 
- É só levar a panela à pia, - eu disse - deixar cair um filete de água permanente, se possível, e abrir bem devagar. – Foi uma instrução que passei baseada na pura fé. Nada aconteceu. 
O próximo passo foi achar a outra panela. Eram duas panelas e uma tampa. Completamos o outro conjunto, tiramos quatro conchas cheias e depositamos em uma panela ordinária, a fim de diminuir a quantidade de feijão. Descobrimos alguns grãos mutantes, outros de diferente espécie e até um que estava envolvido em papel vegetal, daqueles que serviam para fazermos mapas e que envolvem algumas balas; um grande achado para nós, uma ridícula descoberta para a humanidade. Na tampa da primeira panela, morreram alguns grãos.

 À segunda panela, bem mais bonita e confiável, foram despejados os grãos remanescentes, que ainda eram muitos, da ordem de 103. Água em mais humilde quantidade e fogo de novo. Garanto que nos sentíamos mais experientes após as primeiras adversidades. O arroz, nesse desesperador ínterim, estava pronto.
Xic, xic, xic. E o pino girava alegre e veloz, como manda o figurino e sua conveniência. Aquele barulho da infância, da cozinha antes do almoço; o chiado que povoa a mente da maioria dos brasileiros. Relaxados, fazíamos piadas e rememorávamos fatos bons do cozimento do feijão no decorrer de nossa história. Era só prestar atenção no vapor. Farofa feita. Houve até uma dramatização cômica quando deduzimos que o feijão estava pronto e abriríamos a panela. Dali para o prato, só satisfação. Sobrevivemos.

O feijão foi o almoço, o jantar, o almoço do dia seguinte, o café da manhã de outro e, depois do fim de semana, ainda rolou um caldinho. Ainda temos muito que aprender, obviamente. Mas não nos explodirmos ali foi uma grande e satisfatória experiência. 

O caldinho veio na noite de segunda-feira. Nem precisou de sal.  Organizamos a pia após lavarmos a louça. A lua, surgindo da montanha, minguando, nos deu um espetáculo. Mas embaixo da janela da cozinha que dá para a varanda nasceu um feijão, um broto de feijão, sem o artifício do algodão no potinho de iogurte. Acreditamos que o bicarbonato de sódio, que um dia o vento espalhou pela pia, e a a´gua corrente que de algum canto mina ali, foram seus fertilizantes. Outra hipótese cientifica que elaboramos. Ali este broto permanecerá até que ele mesmo decida seu futuro. Seu nome não seria outro senão Jorge Feijão, numa casa onde senhorio e filho dele, além de um de seus moradores são Jorges. Mr. Bean, caso ele fale inglês. 

Tudo isso merece uma filosofia das mais baratas:

 Por mais que cozinhemos e consumamos os alimentos, eles reaparecem, reproduzem-se e continuam a nos alimentar. Ainda há espaço e tempo para plantar e acabar com a fome mundial e...
Teresópolis, 8 de outubro de 2009.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

TRÊS PESSOAS




Na sala, mãe e filha estavam com a televisão ligada. Também conversavam durante o noticiário, antes da novela.
— “A Polícia Federal prendeu ontem mais três suspeitos de corrupção, apropriação indébita e desvio de dinheiro público para contas privadas no exterior.
    Mãe, se não choveu hoje, só chove na semana que vem.
— Que é isso, minha filha? Hoje de madrugada ouvi uns pingos e o terreiro amanheceu molhado.
— “Guerra do tráfico: facções rivais trocam tiros com policiais em pleno Centro da capital do estado e explodem duas granadas lançadas a esmo sobre as pessoas. Além de vários feridos, um senhor aposentado foi atingido no pescoço e morreu na hora.
— Filha, aquela sua blusa nova ficou boa em você? Eu comprei ontem, mas achei muito longa.
— Ah, mãe, ficou um pouquinho longa sim; apertada aqui embaixo, na barriga, mas nada fora da moda. Além do mais, a cor é linda. Mais uma vez, a senhora acertou. Brigada, tá?
— “O Congresso Nacional adia a votação do projeto de lei que autoriza a distribuição gratuita de preservativos em todo o território do país, inclusive nas regiões de classes mais abastadas. É a sétima vez, em dez anos, que o projeto entra em pauta, mas não há quorum suficiente para a aprovação. O porta-voz do governo, entretanto, explicou que, além da falta de interesse dos representantes dos cidadãos, as empresas não entraram em acordo com os fabricantes do produto que alegam não haver garantias para a distribuição dos preservativos.”.
— Cadê seu namorado? Tem tempo que ele não aparece aqui.
— Ainda deve estar com medo do papai. Depois daquele barraco que aconteceu aqui... ih.... bem, deixa para lá.
— “O presidente da República, em viagem oficial aos países economicamente relevantes do Leste Europeu, diz que as propostas de acordos bilaterais estão tendo bons respaldos e os laços com determinados países estão se estreitando. Novos e grandes parceiros comerciais estão surgindo. ‘O Brasil se aproxima cada vez mais do desenvolvimento. O futuro é agora!’,  alegou o nosso representante maior.
— Papai vai chegar que horas, mãe?
— Isso era tudo que queria saber. Saiu às sete horas do trabalho e falou que ia ao bar com três novos clientes, para tratar melhor dos assuntos. Só que eu liguei para o celular dele quando acabou a novela das sete e deu fora de área.
— “Crime no interior. Corpo totalmente desfigurado de um jovem é achado à beira de uma estrada próxima a uma propriedade particular. A Polícia suspeita de crime passional ou vingança. O inquérito foi aberto nessa manhã e aponta o empregado da fazenda como principal suspeito, mas veem cumplicidade da menor M., que também trabalha na fazenda. O crime abalou a pequena cidade por causa da atrocidade da execução. O prefeito está abalado e mandou os pêsames aos familiares, que são de origem bem humilde. A mãe do jovem está em estado de choque e o pai avisou que se as autoridades não se manifestarem logo, a Justiça Divina tomará as providências.”
— Mãe, estou com uma coceira aqui. Vê o que é para mim?
— Hum. Deve ser um mosquito que fez isso, nada demais. Passa amônia; está lá em cima do armário da cozinha, aquele cor-de-madeira. Aproveita e traz um copo d’água para mim, fazendo favor.
— “O Congresso dos Estados Unidos da América aprovou mais verbas para os militares e para a construção de material bélico com tecnologia de ponta. O tenaz objetivo é evitar as ações dos terroristas que ameaçam constantemente a democracia mundial e o poder de Deus. Parte da população de Washington fez uma caminhada até a Casa Branca, entretanto, a força policial não permitiu que passassem das imediações do local, confinando-os, pois, às margens do Pontiac.”
— Aqui está, mãe. Bem fresquinha. Já tomou o remédio?
— Está aqui na caixinha, foi até bom você me avisar porque a dor de cabeça está piorando.
— “Depois dos grandes resultados no Campeonato Mundial, a delegação de handebol solicitou ao comitê olímpico mais verbas para o esporte, uma vez que este é uma das atividades que mais vem se desenvolvendo e crescendo o número de praticantes nas escolas e nos clubes. O apoio daria condições aos atletas de treinarem e evitaria a larga emigração aos grandes centros do esporte, como a Europa.”
— Ih, mãe. Falou Europa ali? Não é de lá que veio a família da vovó?
— Isso mesmo, minha filha. Do Líbano, caminho para a Europa.
— “Uma senhora de sessenta e oito anos de idade ganhou uma menção honrosa da UNICEF, órgão das Nações Unidas para o auxílio às crianças pobres, por causa de seu projeto criado na cidade de F., onde abriga crianças órfãs e carentes, dando-lhes casa, comida e o principal: carinho.”.
    Ah, que coisa bonita! É assim que as pessoas deviam ser. 
— Até que enfim uma notícia que preste! É só desgraça, coisa boa nunca mostram... até que hoje foi bom o jornal.
— “Boa Noite. Boa noite!”
— Mãe presta atenção que vai começar o capítulo.
— Estou aqui minha filha. Você acha que eu vou perder?
O marido, cansado e um pouco alto devido às cervejas, chega em casa. Recebe um oi e um boa noite não se sabe de qual das duas, ou da terceira outra “pessoa”. Vai para a cozinha, come o que acha nas panelas sem se dar o trabalho de esquentar. Banheiro e quarto.

Petrópolis, 28 de dezembro de 2004.

domingo, 23 de dezembro de 2012

RAY, ou, 'Se tá ruim pá nóis imagina pra classe média'



Agora que já passou o amigo-oculto da “empresa”, pode falar da saga que é comprar um, um único presente. Fui o último a tirar o papelzinho, era aquele ou nenhum mais. Vibrei quando vi na lista o presente sugerido: Um disco do Ray Charles. Sem mais. Não! Mais um pouco. 

Pensei que passara todas as músicas do Ray para o meu computador. Faria uma bela coleção, imprimiria algumas fotos do Ray, contrataria os serviços de publicidade do meu irmão e faria um maravilhoso CD/MP3 pirata. Só que não pude fazer isso. As músicas não foram para o computador, logo, haveria de comprá-lo. 

Eu ainda gosto de comprar CDs. Destino, pois, L.A. (Lojas Americanas). Coisa rápida, apesar das cheias nas ruas durante este período.

Eu, que costumo fazer as coisas do dia-a-dia a pé, decidi ingenuamente (a ingenuidade que ainda há de me finar) ir de ônibus naquele dia. Os ônibus da bela Teresópolis adotaram um sistema de identificação de idosos por meio das digitais. Então o senhor ou senhora, para ter sua passagem gratuita, deve passar o dedo em um sensor que irá identificá-lo e o liberar a catraca... isso na teoria. A prática: passa um dedo da mão direita, digital incorreta; passa o outro, o dedo médio, digital incorreta. Fila aumenta, surgem reclamações. Passa o indicador da esquerda, digital incorreta. Motorista e trocador são vítimas injustas das reclamações. Dedo médio da esquerda (simbolismo da revolta), demora, processando, digital correta, idoso aprovado. Isso a cada parada, cinco minutos. O que seria uma “viagem” de pouco mais de seis minutos se transforma em mais de trinta, agregando o intenso tráfego. A pé, chegaria bem antes às L.A. Mas...

Lojas Americanas. É certo que haverá alguns CDs do Ray, todos que comprei vieram de lá. Alguns minutos procurando naquele caos de prateleiras sairía com um exemplar por ótimo preço. Entretanto, o caos é maior do que imaginava. Verifiquei nas prateleiras de CDs caros (quase comprei um do Zé Ramalho tocando Beatles) e nada de Ray Charles. Tive que me dirigir a uma funcionária:
- Senhorita, por favor. Cd do...
Por uns instantes achei que estava invisível, mas ela me indicou outro funcionário apontando-o com o queixo:
- Boa tarde, amigo. Cd do Ray Charles.

Devo frisar que tocava pela segunda vez o outro Rei, o Carlos, O Cara. Ao que ele me responde:

- É só procurar, temos vários dele. Você quer o novo?
- Não, apenas uma coletânea...
- Tem nas prateleiras e naquele cesto ali. Tem que procurar. Até os da Jovem Guarda.

Dedilhei aquilo tudo. De AC/DC a Belo; de Judas Priest a Victor & Léo – peguei um de Santana, O Cantador, presente para meu pai - de Chico Buarque a Oasis; De Biquíni Cavadão a Guns ‘n’ Roses – achei um de tangos, para mainha. É, deveria ir à loja especializada em CDs e variantes. Comprei os CDs sem enfrentar fila porque ninguém havia reparado nas caixas vazias em outro setor.
Chegando à loja especializada, recepção de gala. “Boa tarde, boa tarde, posso lhe ajudar, claro, Entre e Ouça. 
- Ray Charles. - fui lacônico.
- CD ou DVD? – o sujeito era profissional.
- CD.

Acenou-me no estilo: “vem comigo que você não vai se arrepender”, e deixou em minhas mãos quatro CDs do Ray. Dois com músicas dos primeiros anos de sucesso e outros dois com gravações mais modernas. Nenhuma coletânea. Achei ótimo. Alguns minutos de escolha e decidi por um com canções mais atuais, pouco antes da morte dele. Quase levei todos.

Evitava ver outros produtos, pois já pensava em comprar muita coisa – dos DVDs, um do Pink Floyd e outro do The Who; dos CDs um do ainda Jorge Ben e outro David Bowie. Comprei o presente, afinal, e ainda vi duas meninas procurando por Yellow Submarine; outro jovem casal querendo um DVD de uma Filarmônica que tocasse Beethoven. Ali se mostrava a esperança na melhora da humanidade, apesar de poucas horas antes de mais um Fim-do-Mundo.

Já se passavam quase três horas de “compras”. Saí da loja e tomei a rua. Novo caos. Os carros me declinavam da esperança de melhora da humanidade através de seus potentes e abelhudos sons. Mas estava pronto para o amigo-oculto, pessoa especialíssima. Tão especial quanto a que tirou o papelzinho com meu nome, colega de função (co-worker). Tenho, finalmente, “Educação Sentimental” de Gustave Flaubert. Com dedicatória!

Foi desgastante, um só presente como objetivo. Mas, imagina para os que devem comprar mais de dois?

Itaipava, 23 de dezembro de 2012. 

  



domingo, 21 de outubro de 2012

ABELARDO, O MUAR DO SERTÃO




Ali nas cercanias do campo de futebol de Seu Ataíde vive Abelardo, o Muar do Sertão. O Pessoal, depois das partidas, não rejeita churrasco de bode e cerveja; pingas e o que demais houver para repor energias. O córrego perene salva a sede de todos.

Abelardo, o Muar do Sertão, sempre quieto, ouve mais do que fala, mas quando fala, fala bem, às vezes nem tão bonito, porque fala a verdade que vê. Vê tudo, mas engana o Pessoal fingindo que não vê. Abelardo, o Muar do Sertão, gosta dos humanos, mas tem vez que não aguenta tanta... humanice.

E lá estava Abelardo, anda solto porque ninguém o há de amarrar senão quando assim deseja, quando vai para a venda encher seu caçuá de palma e feijão de corda. Sempre cumprimenta Valdemá, O Carcará e Calango Jango, que nada tem a ver com o Goulart. De vez em quando tem papo entre eles, que a gente pode até registrar aqui um dia desses.

E foi num dia desses que Abelardo, ouvindo o Pessoal contar umas humanadas (que na nossa visão seriam besteiras), percebeu um movimento esquisito no icó que fica do lado esquerdo do campo, perto da bandeirinha de escanteio. Bicho branco e ágil, destacava-se do chão rachado e ocre. Não era Calango Jango. O bichinho passou pelo Pessoal, pegou uma migalha de alguma coisa e correu; e subiu o umbuzeiro. Abelardo olhou cabreiro para aquele alienígena, que com suas patinhas velozes e respiração apressada, chamava pela presença do muar. Ao se aproximar, ouviu-se um falsete:

- Abelardo, O Muar do Sertão! É você?
- Oxente, quem és tu, cramunhãozinho, para me conhecer?
- Jovelino, o Esquilo Albino. O senhor é famoso aqui e por aí tudo. Aquele que resolve qualquer problema.
- Bom, já vejo que não alucino. Só que nada sou orgulhoso, tampouco cego, surdo e mudo. Desembuche, não tema. Te escuto.
- Só um minuto, estou arfante. Já sigo adiante.
- Tem mais de hora, recupere-se da corrida e do tranco.
- Muito embora eu seja um esquilo, percebe que sou branco, coisa que não devia ser. Mas assim nasci, fazer o quê?
- Ora, ora, e em quê que isso lhe aporrinha?
- Nenhuma esquila me quer, essas coisas de não aceitar os diferentes. E só me sobram as ratinhas, branquinhas, que moram no laboratório. Mas nem a elas posso amar.
- Antes lá que num sanatório, aonde nos leva, de quando em quando, um amor ardente. E o que lhe impede de a elas namorar?
- Eu as paquerava à distância, jogávamos charminhos. Até que um dia que resolvi abrir caminho e sentir a fragrância, como um olor de açucena. Porém, seu Abelardo, chegando às janelas, que fardo, que pena, judiaram delas. Bisturi e seringas, tudo ali vira experiência. Não posso com isso não.
- Aí que vem a paciência. Esperar que uma esquila morena não seja racista, tenha inteligência e a ela falte ignorância para perceber que aí em teu peito, seu menino, há muito amor.
- Pobre eu, além de albino sofredor. O que impedirá para que não desista?
- Nobre sofrer, de todo o batalhador. Jovelino, o Esquilo Albino, não perca a esperança, é o que posso lhe dizer. Insista.
- Assim seja. Vou eu, então, por aí, Seu Abelardo, o Muar do Sertão. Obrigado de coração, deste que ainda bate forte por uma esquila serena. Quem sabe ainda não exala a açucena? Até mais ver.
- Peleja plena é essa coisa de vida. Até.
E Abelardo viu Jovelino chispar pelas picadas. Bebeu no córrego e voltou para perto do Pessoal.

Itaipava, 21 de outubro de 2012.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

E LÁ EM CIMA, O CASTELO EM FESTA



 
- Ô bicho, você foi muito cedo, cara. Sei que todos vão cedo, mas você exagerou! – revoltei-me.

- Ô Quintella, eu sei, foi mal. – João Lenjob, Galo forte, tenta se desculpar, com aquele singelo sotaque mineiro; boina, camisa do Atlético Mineiro, um violão; sem a bengala.

- Pô, brother, agora não sei se vai ser mais fácil ou difícil nos falarmos. Eu tento daqui e você tenta daí. Tempo agora você tem. Seu Castelo, o do Poeta, o do artista, que você é – múltiplo artista – vai ser o mais acessível ainda. Vejo daqui, de um modo que não sei explicar, que John Lennon e Antônio Carlos já estão lá na porta, te esperando. Os dois com uma viola. Mais tarde o Arnaud Rodrigues e o Chico Anysio apareceram por lá, eles estão ainda um pouco ocupados conversando com o Millôr.

- Ô bicho, é mesmo, tô até meio encabulado.

- Ora, meu cumpádi, até parece! Você, encabulado? Continua com seu grande humor. Ó, prestenção, aí não deve ter essa babaquice de se vexar e se intimidar com nossos ídolos daqui de baixo. Aí em cima a relação deve ser outra, suponho. Difícil vai ser aqui para gente. E Nova Era, como é que ai ficar? E o Maletta? E aqueles botecos do Gutierrez em BH? E os discos e as cachacinhas no La Rara?

- Ah, mas se eu puder eu passarei por lá. Também não sei muita coisa, Quintella, tô chegando aqui agora.

- Compreendo, quer dizer, tento compreender. Para aí que pretendo, que todos pretendemos. Todos aqueles, meu amigo, meu primo – por que não? – todos aqueles que você fez sorrir e se emocionar. Todos aqueles que você ensinou; que você, incansável, buscou para que conhecêssemos. Poxa vida, quanta intensidade em quatro anos que convivemos.

- Pois é, bicho, parecia que sempre havíamos sido amigos.

- As tardes de domingo, quando eu e Ana Letícia íamos para a saideira de BH, e depois voltava para minha casa. Aquelas longas conversas despretensiosas e sadias com João, Juquinha, Tiana e Orminda. Cervejas, pães de queijo, esportes, Big Brother.

- Ô! Nem me fala, sentirei saudades de estar fisicamente, materialmente com vocês...

- É, porque bem sabe que além de sua obra, seu trabalho está bem vivo em todos nós... Cara, que droga, você foi cedo demais.

... Vai lá Joãozinho, tô vendo daqui quatro caras chegando lá no se Castelo. Dê uma olhada. Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pelegrino e Otto Lara Resende. Ih! Mais um, o Drummond! E outro, seu xará, o Rosa. Vai lá, um bom papo agora, como sempre. E nós aqui aguentamos o tranco.

A gente se fala.

Itaipava, Petrópolis – 15 de outubro de 2012.

sábado, 13 de outubro de 2012

HEMINGWAY REVISITADO




Aquele que imaginar uma resenha ousada sobre Ernest Hemingway ou uma obra dele nas próximas linhas mude o espírito da leitura.

Ainda não li uma obra inteira dele senão comentários e artigos. Vi também alguns documentários sobre vida e obras. Isso já seria suficiente para algumas palavras, mas não seriam tão aprofundadas como gostaria de escrever numa crônica. Hemingway é um dos escritores a quem devo ler. A ele e a outros mil.

Um dia, afanei emprestado lá do serviço uma biografia dele, escrito por Carlos Baker; versão pocket book, tamanho político/banqueiro, ou seja, bem grossa (explicação desnecessária). No intuito de devolver rapidamente o livro à instituição, decidi acabar com o livro rapidamente.

Consegui ler boa quase-centena de páginas, mas a vida corrida da atual modernidade pós-moderna da contemporaneidade nos impele a outras demais atividades que não uma leitura daquilo que o indivíduo de nossa era pensa em terminar; fenômeno este mais conhecido como “A preguiça sobre as leituras descompromissadas: difusões e infusões da antiga Grécia à transição do século XX para o XXI”.

Entretanto, o Inconsciente, este nosso ambivalente companheiro, que concomitantemente não cansa de nos pregar peças nos ajudar a descobrirmos a nós mesmos, armou uma para cima de mim.

Resolvi devolvê-lo. Tornei-me irredutível. Larguei o livro na minha escrivaninha, liguei o meu grande MP3 (laptop). Passava das onze da noite. Variava entre uma palavra cruzada e uma partida de Mah-Jong no (agora) laptop, para chamar o sono que andava por perto. Escolhi umas músicas do The Cult, Metallica e AC/DC, pus no aleatório (em português, random) e deixei rolar. Depois de Hells Bells, do AC/DC, veio For Whom the Bells Tolls (Por quem os sinos dobram?), do Metallica.

Foi um sinal. 

Mas não soube o que fazer, como reagir a esse sinal. Achei que depois de ter ouvido a sequência, ou mesmo um pouco antes, deveria voltar à leitura, ainda que por alguns minutos antes de dormir. Assim o fiz. Só que nas páginas que lia havia muitas palavras que não entendia. A preguiça de pegar o dicionário (Cambridge Bloody Fucker Dictionary of English & Culture) mais vezes que o próprio livro aumenta quando estamos deitados. Desse modo, dormi.

Lá pelo meio da noite, subi na varanda de um bar. Luzes espalhadas pelas paredes em terracota ou cor de laranja. Um poste iluminava ninguém mais, ninguém menos que ele: o Ernest. Ele estava compenetrado ao folhear pequenos papeis em cores fluorescentes. Olhava algumas figuras, escrevia pequenas frases; poemas? Caramba, vejo o grande escritor na fase de criação, de produção!  
- Ernest, é você? - Indaguei-lhe.
Ele apenas levantou os olhos com uma cara de Orson Welles, inclinou um pouco mais a cabeça e me disse.
- Vamos, garoto, pegue uma cadeira e me ajude aqui. Quer cerveja?
Não respondi, apenas tentei ir para a mesa e, ansioso, não sabia se falava em inglês ou em português, por mais que ele já tivesse se comunicado em português, com timbre de dubladores da Herbert Richards, AIC-São Paulo ou DKS. Jogou para mim duas ou três folhas coloridas daquelas. Tinham fotos de drinques como daiquiris, mojitos, sangrias etc. Um garçom ultra bem vestido, parecia com o personagem de charges Amigo-da-Onça, me entrega um whisky. Ele continuava com a birita dele, intacta, e compenetrado.
- Quero lançar um livro das melhores receitas de daiquiris, ajude-me a escolher umas boas aí, rapaz.
- Claro.
Enquanto olhava aquelas receitas, comecei a achar aquilo meio besta. Estava na mesma mesa que Ernest! Pô, vamos trocar uma ideia em vez de fazer essa triagem de cangibrinas. nsei isso, mas falei:
- Pô, Ernest! Cara, me conta aí das suas paradas, de seus escritos, seus perrengues lá na Guerra Civil espanhola.
- Tudo bem garoto, vou lhe falar: está tudo escrito.

Quando acordei, honrado por ter tomado um esporro didático do Ernest, o mínimo que devia fazer era continuar a ler. Voltei a dormir, no entanto, na tentativa de voltar ao bar onde estava o Ernest para inventar uma desculpa e promessa de leitura.
Nunca mais o li, embora esteja lá, na minha cabeceira. junto com o "O velho e o Mar", que surrupiei emprestado da casa de meus pais.

Itaipava, Petrópolis – 13 de outubro de 2012.  

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

NÓS, LUSÓFONOS: LAÇOS HISTÓRICOS, CULTURAIS E POLÍTICOS




Para o bem da Literatura em Língua Portuguesa, José Saramago ganhou o prêmio Nobel da Literatura em 1998 com o livro, se não me engano, “Levantado do Chão”. E para o bem do mundo, essa premiação eriçou a curiosidade mundial daqueles que ainda não haviam atentado para a qualidade das obras em nosso idioma. Essa expressão, nosso idioma, é muito bem figurada por ele como o idioma de Camões e Machado de Assis, “pois o mundo ainda não o conhece como deveria”.

Li em uma recente edição de Grande Sertões: Veredas um prefácio ou ensaio dizendo que já na década de 30 a língua portuguesa merecia seu Nobel com Guimarães Rosa, para citar somente um. Entretanto, continua o autor do prefácio, o fato de ser em língua portuguesa ainda era muito exótico, digamos assim, para a literatura mundial reconhecê-la segundo os parâmetros da homenagem sueca. Saramago seguramente endossa essa e diversas outras opiniões quanto o tardio reconhecimento de nossa literatura moderna e contemporânea.

Saramago não se considera um grande romancista senão um ensaísta que brinca com a prosa e, desse modo, transforma seus escritos em quase-romances. Desde 98, portanto, os leitores de todo o Brasil e do mundo passaram a conhecer mais suas obras por causa da grande oferta nas livrarias e reedições oferecidas pelas editoras. Um mundo leitor que já conhecia Eça de Queiróz, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco; Mário de Sá Carneiro, Florbela Espanca e Antero de Quental.

Fernando Pessoa é mais que pessoa, mais que alma, mais que poeta, mais que mundial. Logo, é outro assunto, meta-filosofal.

Para nós brasileiros, não teria graça falar dos nossos magistrais escritores porque nós temos conhecimento deles e de suas obras. Mas é interessante perceber que só falei até agora de brasileiros e portugueses. Não falei dos africanos de Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe; e dos asiáticos do Timor Leste, Goa e Dão (Índia), Málaca e ainda Macau.

Não falar deles foi um dos sintomas, o outro é saber que, embora haja grandes pesquisadores e especialistas em Literatura africana, a quantidade de cursos e disciplinas é escassa. Para os novos profissionais da área e aos estudiosos, engajar-se no estudo de nosso idioma no outro lado do Atlântico e em dois pontos do Índico, será uma seqüência de descobertas equivalente às que os navegadores portugueses fizeram há mais de cinco séculos, por mares nunca dantes navegados. Desse modo, Saramago dirá que o nosso idioma é o idioma de Camões, Machado de Assis, João Agualusa (Angola), Mia Couto (Moçambique), Manuel Lopes (Cabo Verde). E ainda vamos nos surpreender quando descobrimos a literatura do Timor Leste.

Todavia, José Saramago, não deixou - e com razão -, que a editora brasileira fizesse uma leve adaptação para o português falado no Brasil. Em seus escritos está a língua portuguesa, em uma de suas manifestações. Ora, pois, concordo com nosso ribaltejano, sabe ocê? Adaptando uma obra em português para português do Brasil é, não só mudar a língua e o sentido como, pior, empobrecê-la, não é? A magia de uma língua tão falada no mundo é saber de suas variações gramaticais, ortográficas, lingüísticas etc. de acordo com suas circunstâncias históricas, sociais e políticas.

Política... toquei no assunto. A Rádio e Televisão Portuguesa (a iérretepê) mostrou um brilhante documentário sobre a eclosão da revolução dos angolanos contra os colonos brancos portugueses e a situação de colônia, ou seja, a guerra pela descolonização e independência de Angola. 15 de março de 1961, as forças da União Popular de Angola (UPA) iniciavam oficialmente a sua vontade de se desatar da ditadura de Salazar.

Gostaria muito de desenvolver esse tema, que está bem fresco em minha cabeça, mas deixarei para outra ocasião, ou mais adiante, pois prefiro atentar para um suposto detalhe da edição do documentário.

A narração e os depoimentos dos militares portugueses e dos portugueses colonos nascidos em Angola não tinham qualquer legenda, naturalmente. Nem imaginaria legenda em uma questão delicada entre duas regiões de mesmo idioma, no entanto, não acontecia isso quando os ex-membros da UPA. E após o impacto dessas legendas em português para um discurso em português, percebia que entendia melhor os angolanos do que os discursos dos militares portugueses.

Compreendi que por ser um programa de Portugal, valeria a pena uma legenda caso o português angolano fosse mais para dialeto do que para o idioma. As legendas, porém, eram desnecessárias, por mais que eu tivesse que prestar atenção. Era uma espécie de tradução de língua falada para língua escrita. E para um brasileiro, os dois eram dialetos, mas línguas modernas e atuais, também manifestações regionais e sociais da língua portuguesa.

E no lugar de concluir, questiono: Saramago concordaria com essas legendas em espécie de tradução das falas dos angolanos? Se assim o fizesse, deveria deixar fluir as adaptações de suas obras, caso contrário, há um ranço colonialista em defender o português de Portugal.

Compliquei, né?
* E quatro anos, desde que escrevi esse texto, é prazeroso saber que a quantidade e distribuição de romances e outras obras em línguas portuguesas aumentou muito.

Teresópolis, 29 de janeiro de 2008.