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sábado, 26 de fevereiro de 2011

COSTUMES IMUTÁVEIS - 1



Mexendo no Canis Familiares, meu antigo blog, achei a saga "Costumes Imutáveis". Eu pegava uma passagem de um livro e o verificava na vida. Aí está o primeiro:

Nikolai Gogol, in Almas Mortas, Rússia, 1835.

"Sua chegada não causou na cidade nenhuma celeuma, nem foi acompanhada por nada especial; apenas dois mujiques (camponeses) russos, parados na porta do botequim defronte à estalagem, fizeram algumas observações, aliás referentes mais ao veículo do que o passageiro. - Espia aquela roda - disse um para o outro -, estás vendo que roda? Que te aprece, aquela roda chegaria a Moscou, se fosse o caso, ou não chegaria? - Chegaria - respondeu o outro - mas até Kazan eu acho que não chegaria. - Até Kazan não chegaria não, - disse o outro. E com isso terminou a conversa."

Eu, às portas do bar Tic-Tac em Petrópolis, 2005, tomando café pela manhã.

-Rapaz, olha só! Cabine dupla e tudo - Diz um amigo homem para o outro, encostados no balcão.
-Só pode ser a diesel. Isso roda o Brasil inteiro se deixar!
O outro fora até à caminhonete para ver a placa.
-RS é Rio Grande do Sul, né?
-É, é de lá que vai para serra gaúcha.
-Hum, esta caminhonete veio de lá! Deve estar indo pular carnaval em Cabo Frio.
-Que nada, com isso aí pode até Salvador!
-É... bebe mais uma?

Petrópolis, fevereiro de 2005

domingo, 20 de fevereiro de 2011

PAISAGEM ACÚSTICA DO BAIRRO



Este ano, em Teresópolis, não haverá carnaval. Não ouvirei os batuques dos ensaios da bateria independente da Gaviões da Colina, justamente no ano que ela estrearia no Grupo Especial. A título de explicação, bateria independente é aquela em que cada componente é livre para exercer seu batuque, sendo a presença do mestre de bateria apenas simbólica e ilustrativa.

Lerei, escreverei, prepararei as aulas, arrumarei o quarto, cozinharei, beberei sem a tradicional trilha sonora que tanto ritmou meus estudos em 2010.

Todavia, novos aparatos, bem mais próximos, dentro do próprio bairro Jardim Cascata (Waterfall Garden) surgiram após a Associação de Moradores. Mantém-se, pois, aquele misterioso radinho engatado na Rádio Grobo, os latidos, as sirenes, as centenas de máquinas de cortar grama, as conversas de celulares nas janelas alheias e demais coisas que descreverei nas próximas linhas.

Antes, porém, não há surpresa alguma que a sigla da associação é AMAJC. Amamos também Jesus Cristo, mas não confundamos, por favor.

A empresa de segurança fornece um serviço que me fez pensar que antes dela eu estava em um local semelhante à Faixa de Gaza: câmeras espalhadas pelas esquinas. Nos dias de inverno, sinto-me em Londres, nos de verão, em Cingapura; rondas constantes de motocicletas, com lampadinha girando na traseira e tudo que convém para nossa segurança.

As motocicletas vão até o final da rua, retornam; e sempre penso que é a moto da quentinha ou da pizza, tentando me lembrar se alguém os chamara. Ato contínuo, vou à janela e os cachorros do vizinho em frente me saúdam. Dois pastores belgas, ou descendentes deles, ficam presos e sozinhos. Às vezes basta que eu assome à porta do meu quarto, acenda a luz e minha cabeça atinja o campo de faro para que eles ladrem. Seus donos, nós os conhecemos (redundância).

É um casal que divide um táxi. Amiúde, tomamos conhecimentos detalhados de um entrevero que possa ter começado no bar do Pires, no começo da rua, e se estendido até nossa janela. Os cachorros também querem participar, mas recebem ordens de cala a boca não acatadas. Bem, acho que as ordens de cala a boca são para os cães. Quando o varão volta, do bar, acompanhado somente pela aguardente, ele dá um assobio para nossa janela e profetiza um placar do próximo clássico carioca ou jogo do Flamengo ou Botafogo; profecia contrapartida por outra, a do meu conviva, que é botafoguense.

Ao lado da casa deles está uma pequena e escondida mansão. Até agora não sei quem é o proprietário e quem é o caseiro, mas durante o semestre passado uma equipe de operários dedicaram-se a subir e eletrificar as grades, instalar alarmes e eletronizar o portão. O problema estava no “instalar alarmes”, quanto ao nível de sensibilidade da massa corpórea invasora. Um amadorismo preocupante.

Não raro, dormindo ou lendo nas madrugadas, aquela p... explodia e dissipava todo meu sono ou concentração. Demorou muito para o indivíduo ajustar o nível de sensibilidade para Homo nem tanto Sapiens/ladrão/invasor (não necessariamente nessa ordem). Nas primeiras semanas estava no nível Libélula/Aedes aegypti; por mais de um mês permaneceu no nível Felix cactus vadio; passou para Cabeça de Equus caballus solto, Carro estacionado defronte até chegar ao nível que impedisse um sorrateiro ser humano invadir a casa.

Para o caseiro ou dono se lembrarem do alarme também levou tempo. Mais disparos vinham quando eles esqueciam o portão aberto e que eles eram massa corpórea ambulante. Hoje este problema está aparentemente sanado, mas como o objetivo é embelezar a paisagem acústica do Jardim Cascata, todos as noites, provavelmente depois do jornal, o caseiro liga o Renault 2008, cor grená-almiscarada, para que a bateria não arreie. E dá cada acelerada que leva todo combustível para a atmosfera sem que se ande um centímetro. A placa é 2026... ano cabalístico em que os arqueólogos extra-planetários vão achá-los depois do fim da terra. No mesmo lugar.

Por quase vinte minutos aquele motor zumbe. O carro, seguramente nasceu ali e jamais se locomoveu.

Já ameacei dispor as caixas de som na janela para compor, participar do movimento sonoro do bairro. Entretanto, o choro, o riso e os gritos do bebezinho do prédio ao lado da casa do casal taxista é cativante. Que criança palradora!

Teresópolis, 15 de fevereiro de 2011.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

COMPANHEIRO ACIDENTAL


Acredito que tudo o que a humanidade já conceituou sobre "um comportamento humano" pode-se projetar nos cachorros. Eles ainda possuem o benefício do instinto e, em menor escala(dependendo de nossa loucura),a racionalidade e a emoção. São maus quando têm que ser maus e bons quando lhes convém. É intrigante.

Havia ou há uma clínica veterinária em Petrópolis com o lema estampado no letreiro "um tratamento humano para o seu animal". Sei não... será que o nosso "Mundo Cão" é para eles, Canis familiaris, o Mundo Humano? Os veterinários poderiam estudar sociologia e antropologia também, caso quisessem entender mais sobre o cachorro, palavras dos próprios profissionais da área.

Muito a se pensar, conversar, debater, refletir, estudar em várias vertentes científicas e artísticas. Não é à toa que é tido como melhor amigo do homem, o nosso whisky engarrafado, como as sábias palavras de Vinícius.

O cachorro é engraçado por natureza. Uns mais do que os outros: O vira-lata, em primeiro lugar, seguido do Galgo e do Afghan Hound (também galgo). Já ouvi por aí que o Poodle adveio de uma experiência genética que o faz pensar ser humano. Os cães acompanham a todos os seres humanos e também a algumas outras espécies do reino animal ou artificial. É o animal universal e atemporal.

Eles estão sempre na companhia de quem lhes apetece urbi et orbi. Nas pirâmides de Gizé, sob o tórrido sol do norte da África; nas monções asiáticas e na umidade equatorial; na Groenlândia, ajudando os esquimós na caça e pesca sob e sobre o mar congelado; farejando água no Atacama e subindo as infindáveis alturas dos Andes. Tossem nas grandes e poluídas metrópoles, bem como nas empoeiradas roças do mundo.

Com a dona de casa, rica ou pobre, participando de seus costumes; auxiliando mendigos e patrões compreendendo-os em todas suas frustrações insanas (ou racionais); dentro do carro, pondo a língua para fora e curtindo o vento da janela aberta. Caminhando pela estrada, sozinho, com seu propósito obscuro para nós; e adotando este escriba que lhes apurrinha numa exposição agropecuária.

Tanta lenga-lenga para chegar onde eu queria: no dia em que um cachorro me adotou antes dos shows na Exposição Agropecuária de Itaipava.

"Assucedeu-se" em 1998, tinha 20 anos os quais nenhuma Rita me roubara. Antes da crise de 99, vinte reais era muito dinheiro, mas o fato de depois das 19 horas passarem a cobrar ingressos, impeliu-me a chegar à exposição bem cedo, sozinho. Dei uma cipoada num whisky lá em casa e parti, decidido. Os ônibus não estavam empaçocados ainda, mas lotados. Eram 20 pratas para cervejas, caméis (plural de cachaça com mel) e muita preambulação perambulante pelas baias dos bichinhos. Dispensei o rodeio.

18h30. Cheguei, passando de passagem pelas comportas da bilheteria. O preço seria esperar a galera, que marcara às 23 na barraca da boite Rodeo. Já peguei uma cangibrina e parti para os aconchegos dos animais. O maluco botou uma fatia de laranja na borda do copo de plástico. "Para quê, cumpádi?", pensei. Mirei um barril de lixo, azulão, e como um frisbie aquela fração cítrica girou e bateu no meio do barril. Quando pensava em me desculpar pela sujeira, em minha hipocrisia de limpeza urbana, um vulto disparou em direção à laranja.

Chegou feliz, chafurdou o objeto, lambeu-o, decepcionou-se (talvez fosse um pedaço de carne, como o cheiro dos churrasquinhos) e veio até mim. "Pois é gente-boa, é apenas uma fruta". Porte médio, bege, rabo que iniciaria uma espiral. "Macho ou fêmea?", macho. Dei uma assobiada, fiz festinha no cocuruto dele e lhe desejei melhor sorte da próxima vez, sugerindo-lhe até que fosse para a área das barracas de picanha e afins. Tomei meu rumo e um gole daquela fubica que eu bebia. Como disse, estava disposto a saber algo sobre bovinos, equinos, caprinos e, quiçá, bufalinos.

O Gente-boa se levantou, mostrou as patas, quis lamber minha mão, cafungou alguma coisa. Pedi-lhe permissão para me retirar, já me retirando. Vã tentativa. Ameaçava uns latidos e me seguia, amarradaço! "Então vamos, JB (Gente-boa), vamos dar um rolé por aí. Vamos ver outros membros de nosso Reino."

- Uaaaff, rrrr!
-Aí eu já não sei, tenho 17 contos agora, vai ser difícil eu arranjar uma coisa para você. Vamos lá.
- Rr Waaf!
- Não, faço Direito, na UCP, e estagio na Defensoria.

E assim fomos, num vasto e educativo diálogo, enquanto explorávamos lugares que só se visitam durante o dia, nas exposições. Ele me falou, com certo rancor, que as cadelas do hoje-em-dia são umas mulheres mesmo. Eu falei para ele não exagerar, que havia sim, umas mulheres cachorras, mas nem todas cadelas são assim tão mulheres. Ele aquiesceu, falou que não devemos xingar assim as mulheres/cadelas, muito embora algumas gostem disso. Também concordei.

Lá pelas 21h, meu celular (celular da família, no caso) tocou e era um comparsa que já havia chegado. Antes de me despedir do JB, fomos até à barraca, pedi mais uma cangibrina, igual a anterior, e um churrasquinho de frango.

- Toma aê, JB, mas segura a onda hein - dividimos a iguaria.

Nada mais falou. Pegou o "ganho" e sumiu para o escuro, lá perto da na arena do rodeio. Eu me encontrei com os caras:
-Fala Tackle, chegou cedo...
- É, vim para não pagar a entrada, mas já gastei nesse bagulho aqui. Nem sei o nome, mas é forte, vai um gole?
- Já se encontrou com alguém aí? - disse o outro.
- Não, só troquei uma ideia com o Gente-boa ali.

Apontei para o escuro e eles nem ligaram. Rumamos para uma barraca qualquer.

Itaipava, 5 de fevereiro de 2011.

domingo, 30 de janeiro de 2011

CADÊNCIA PIRILAMPA




Tanta coisa preocupante acontecendo; tudo se resolvendo. Mas fica a tensão. Fechei o Luigi Pirandello que re-começava a ler, na busca de personagens, ao passo que os personagens buscavam facilmente o Luigi (com escritores famosos é bem mais fácil). “Vou abrir ‘A Palavra’, o Word, no caso; vai que escrevo algo”. Pensei até em beber uma Coca-Cola (Marca registrada) e comer duas torradas.

Uma passada rápida pelos poucos e-mails; não me aventurei nas leituras de sites e blogs. Comentei uma ou outra coisa no Facebook e nele mandei algumas frases de efeito. Falei com o pessoal, frivolidades, nada mais. Já estava meio-que desistindo, do quê, não sei; mas quase estava desistindo quando me veio a luz: “devo beber a Coca-Cola com gelo limão e cachaça?”

Jordan Dualibe, proprietário Café Cultural e Charutos, era o único presente na linha que poderia me ajudar. Expliquei-lhe a situação e ele consentiu: “Aguardente tem o seu valor”. Logo, estava autorizado.

Havia meio limão e dele fiz não a limonada, mas a cangibrina, bença-bençôe, meu filho. Preparado o goró, era questão de tempo para a coisa fluir... o texto. Bebi a primeira dose, fiz a segunda. Rabisquei três-quatro apontamentos, conectei-os com algumas ideias, veio o título, salvei e a luz acabou.

Uma luz viera e a outra se fora. Laptop/notebook acesso ainda, claro. Apagado. O vizinho ligou o gerador, coisa corriqueira, pois lá não ficam sem novela. Duas, três caneladas nas poltronas, peguei a lanterna ao lado da porta da sala, achei as velas e as acendi. Fui ao “lá fora”, breu geral. Por um segundo pensei em fazer as torradas na torradeira, ó pá.

Voltei para o “lá fora”, na companhia dos cachorros, que saíram de seus sofás, e da caneca de cangibrina. “Devia ter comido aquela torrada antes, e o queijo que comprei com tanto sacrifício lá no mercadinho...” Mas o céu era do Sertão, conforme esta crônica do Groo. Muita estrela. Muitas estrelas. Era um céu para se curtir.

Passou uma estrela cadente, fiz o pedido e não sei se ele foi com ela; acho que foi realizado, ou está sendo. Levei a espreguiçadeira para um lugar onde pudesse ver o máximo de firmamento. Passou outra, bem perto, meio verde. “Que estranho...”. Antes de me espreguiçar afastei os cachorros. Repousei a caneca de cangibrina, afastei os cachorros; cruzei os braços atrás da cabeça, à guisa de travesseiro, e afastei os cachorros de minha barriga. Um deles, apesar de refugado, voltou e ali ficou. Mais outra estrela.

Olhando para o rastro lácteo de estrelas, elas se duplicavam. São tantas e ainda se duplicam? Girando ainda mais do que a Terra. Outra estrela cadente, verde, rasante, pertinho. Não deu tempo de fazer o pedido. Ih! Outra! Quantas!

As estrelas cadentes estavam tão perto... e ainda faziam zigue-zagues no espaço. Até que uma foi parar no alpendre, ao lado da janela. Vagavam... pareciam me dizer: “Esta é sua última caneca, volta para o computador que a luz já vai voltar.”
Voltou a luz, apagou, voltou de novo. Já dentro de casa, tirei umas fotos do momento cachaça. Fiz as torradas, derreti queijos e me pus a escrever. Os cachorros voltaram para os sofás e poltronas da sala depois que perceberem que não haveria mais migalhas de comida.

Itaipava, 27 de janeiro de 2011.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

AÍ CONFUNDE O PESSOAL VII


PRESENÇA “DE DOORS”

Estava aqui pensando: “Brother (eu), você ainda não escreveu algo sobre sua experiência na Rádio Imperial...”. Fui jurado de uma gincana cultural entre as escolas de Petrópolis. Como fui para lá? Explico, mas não será o assunto principal destas linhas.

Se “assucedeu” em 2001, pouco antes do farsídico 11 de setembro, e 28 anos depois do fatídico 11 de setembro. Trabalhava como instrutor de espanhol básico, ou básico instrutor de espanhol, ou espanhol básico de instrução; com direito a lições de cidadania, democracia e mais alguma coisa. Tanto que convidei um amigo meu, estudante de medicina, para dar uma aula sobre DST etc. Era um projeto da Secretaria do Trabalho do RJ e da Mitra Diocesana de Petrópolis, sob a coordenação de padre Jac. As aulas eram na escolinha anexa à Catedral de São Pedro de Alcântara.

Depois da 18 horas, mandei os estudantes para casa, apaguei o quadro, bati as mãos, peguei a pasta e partiria para casa quando apareceu um jovem. Jamais o havia visto. Trajava uma camiseta do The Doors, com o Jim Morrison atravessando uma parede: Break on Through.

- Professor (sic) Thiago, o padre Jac quer falar com você.

Acompanhei-o até o refeitório. Pô, o cara já sabia meu nome, que fazer? Estava de consciência limpa pois não havia falado nada de mal contra o dogma nas aulas. Se me perguntassem algo do Santo Ofício eu aceitaria, tranquilamente, mas depois eu mandava um "Ma che si muove, si muove". Contudo, Ele me convidou para ser o jurado e aceitei. Sentamo-nos à mesa, aceitei um café com leite, tasquei requeijão numa torrada.

Padre Jac foi me passando o esquema da gincana radiofônica. Às dezenove horas lá estaria, com a maior cara-de-pau que esculpi até então. O carinha da camiseta do The Doors ia e vinha da cozinha, trazendo as mais diversas provisões. Duas moças da limpeza apareceram na sala do refeitório, pegaram manteiga e dois pães e foram para a cozinha, naturalmente.

Resolvidas as questões, o padre se retirou dizendo que avisaria aos organizadores que já encontrara o terceiro jurado. Deixou-me à vontade para terminar meu lanche, bem como liberou o jovem morrisoniano para o mesmo (lanche). Depois de alguns silêncios e mastigações eu quis iniciar um assunto:

- E aí, qual música você mais curte do Doors?
- Quem?
- The Doors, a banda, da sua camiseta.
- Ah, nem sabia, só achei a camisa bonita.

This is The End of the post. Mas o início de uma reflexão sobre a expressão estética.

Itaipava, 26 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONSCIÊNCIA, MISSÃO E LEI

Filme Polícia,Adjetivo , Romênia,2009.

Foi por causa da resenha do Professor Carlos Magalhães que logo me motivei a ver o filme "Politist adjectiv" que também poderia ser traduzido ou recebido a versão de Policial, adjetivo. Horas depois de ler a resenha poderia assisti-lo pelo Telecine Cult, reprise, 2:15, logo depois do jogo Brasil x Colômbia do Pré-olímpico de futebol.

Recomendo-o a todos, e mais ainda aos que gostam de arte e ciências humanas. Mas sugiro, com veemência, que professores, pesquisadores e alunos das Ciências Sociais, Filosofia, Direito utilizem a película como material didático.

"Mas sugiro, com veemência"? o que eu quis dizer com isso? Como se pode sugerir algo com veemência? Se usasse a expressão "recomendo muito" o sentido ficaria mais brando e, logo, menos repressivo?

O protagonista Cristi, casado, trinta e tantos anos, talvez, é um policial lotado numa delegacia de Bucareste. Digno homem da lei (Moral? Material?, da Constituição? Da Lei em si, se ela existir? Da Consciência?. Ele recebera a missão de investigar, perseguir e flagrar um usuário de haxixe e, naturalmente, prendê-lo; depois ou ao mesmo tempo, procuraria o traficante. Simples. Simples como suas razões no diálogo que tem com seu colega de departamento.
- Salut Cristi.
- Tem um lugar para mim lá onde vocês jogam Futitênis? Quero perder a barriga.
- Não. É melhor você dar umas corridas. Você não joga bem.
- Mas você nunca me viu jogar!
- Nem precisa, você joga mal futebol. Vai nos atrapalhar.
- Nem uma chance?
- Não, é melhor não. Corra, você perderá a barriga mais rapidamente.
- ... tudo bem. Salut.
- Salut.
(Traduzido diretamente do romeno, menos o "salut")

Todavia, os relatórios de Cristi sobre o caso não mostravam um discurso semelhante ao diálogo, bem como, possivelmente, seu sentimento era ainda... vacilante.

"Em vez de prender este garoto, que nada tem de anormal dentro da sociedade que se procura ser ideal, poderia haver uma solução. Quem sabe ir direto ao traficante? Sete anos de prisão para aquele estudante? Até porque, a Europa toda está fumando, em Praga mesmo, e Amsterdã, então?"

A direção de Corneliu Porumboiu , coincidentemente de minha geração, espelhou-se em Michelangelo Antonionni na intensidade das cenas, dando uma impressão de filme "muito parado" dentro do padrão frenético dos filmes policiais e de ação. Entretanto, por isso mesmo que podemos reparar nos detalhes, como se as cenas tivessem saído das folhas de "Memórias do Subsolo", de Doistoiévski ou das descrições de Albert Camus, em "A Queda". É intenso, e muito movimentado para nossas mentes.

Pode parecer parado também porque não há aquela trilha sonora especial para a audiência. A música vem do que as personagens estão ouvindo. Mirabela Dauer, famosa cantora e letrista da Romênia antes e depois do regime comunista, é ouvida por Anca, a mulher de Cristi.

Dá-se a impressão que o casal passa por uma séria crise, mas quando parece que vai se degringolar uma discussão, há troca de gentilezas, aquiescências de opiniões, aceitação de críticas. E nessas conversas entram questões gramáticas e semânticas; filosóficas e literárias sobre a letra da música da, agora para mim famosa - perdoem-me os romenos - Mirabela Dauer. Razão x emoção, concreto x abstrato. Tomismo. Linguística...

O trailer está nos links. Prestem atenção nos diálogos e na música. Língua (limba) latina e sotaque eslavo. Muito interessante. Ah! E a cerveja que ele toma é a Skol europeia!

Multimesc, salut


Reparem no muro atrás. Há uma pichação de Forta Steaua (Força Steaua [Bucureşti]), time de futebol mais popular da Romênia. Mas há também, vocês verão, o símbolo do Chicago Bulls pichado. Achei interessante

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

VOLTEMOS

Está difícil, mas vamos lá.

Moro em Teresópolis e passo as férias em Itaipava onde eu estava na noite do dia 11 de janeiro para o 12. Consegui uma cena maravilhosa para escrever e relatar aqui, dentro do estilo literário que procuro dispor para meus leitores e amigos. Como já havia publicado umas besteirinhas no dia anterior, 10, resolvi esperar mais uns dias, embora tivesse começado a escrever a crônica.

Era sobre a ridícula cena de como consegui ficar preso no banheiro. Pouco antes eu vi um filme na companhia de meu pai, comentamos algumas coisas e nos despedimos, boa noite. Antes de jogar as latinhas no lixo, deixei-as em cima da mesa e fui ao banheiro; encostei a porta porque a lingueta apresentava problemas. Ela faz parte do miolo ou máquina,(coisa que soube depois e ainda não sei o nome daquilo) na estrutura de uma fechadura (perdoe-me pelos cacófatos em forma de rima) e quebrou no momento em que eu, em atitude normal, encostei a porta.

Todas as tentativas de abrir e nada. O barulho naturalmente despertaria meus familiares; felizmente, nenhum deles havia dormido. A presença deles me deixou muito calmo e não me deixasse traumatizado por tal vexatória situação.

Steve McQueen seria minha inspiração. Nesse caso, não sua vida, mas suas personagens em Fugindo do Inferno,Papillon e Inferno na Torre. E não era o caso de se aludir ao Edmond Dantès, de O Conde de Monte Cristo, de Dumas, pois não havia nenhuma vingança em vista.

Recebi, do basculante, as ferramentas para poder desmontar as dobradiças: a única solução encontrada. Martelo e chave de fenda sem a parte do apoio, que faria as vezes de alavanca. As dobradiças estavam bem presas, obrigando-me a me inspirar em McGyver, durante todo o meu processo de liberdade. A falta de jeito não mandou lembranças, ela esta ali, comigo, me atrapalhando. Chovia muito.

Livre, percebendo a chuva, desconectei as tomadas dos aparelhos eletrônicos mais sensíveis, apesar de não haver raios e trovões. Escrevi, fiz palavras cruzadas, ameacei religar a televisão, mas impedido pela nova remessa de chuva, agora com raios-trovões. Dormi no sofá.

Pouco antes das seis, meu irmão acorda e vai se arrumar para ir ao trabalho. “ A que horas passa o ônibus mesmo?”. “ Vinte pra hora, creio”. Às sete ele voltou: “Enchente, a estrada está interditada, ninguém entra ninguém sai. Vou esperar dar umas oito horas e ligar para o trabalho para comunicar a situação.

Todos acordados. Vimos algumas reportagens, mas a energia acabou logo. Nossa primeira notícia foi dada pela moça que trabalha conosco, ligando para o telefone fixo (funcionava). Pensamos se tratar de mais uma enchente, infelizmente comum, na qual os mortos seriam “só” uns desditosos 16, 17; algumas casas invadidas pela água.

O pessoal que limpa a piscina conseguiu chegar aqui em casa, soubemos do trânsito e da situação. A coisa era muito mais séria.
Meus pais e meus irmãos saíram para os respectivos trabalhos. Voltaram no fim da tarde, “Thiago, você não imagina!”. A energia voltou, pudemos ver as imagens, imaginar. No dia seguinte, justamente para consertar a maçaneta da porta, eu vi as imagens. Assustadoras. Lá estive e agi, conforme o que poderia fazer.

A sorte, a boaventura, sei lá o quê, anda comigo. Recebemos milhares de telefonemas. Eu agradeço a todos, sem saber ainda como, a preocupação comigo e conosco.

Sem pieguice, apesar de meu lado racional sempre emperrar meu emotivo, fiquei abalado. O horror ao lado e eu, nós, bem.

Itaipava, 19 de janeiro de 2011.