
Aqui nos – aindabem – trópicos: solstícios e equinócios mudam muito o clima, que já é, coitado, maluco hoje-em-dia desde de uns tempos atrás. Complicam nosso vestir quando a chuva sem aviso substitui o sol que antes um pouco se fazia imponente. E eu, que não me agrado de guarda-chuva(s)? E que dirão os alérgicos dessas viradas de tempo?
Era a chuva que ameaçava voltar. Peguei um café em copo de plástico na Taberna Guaíra, que está em frente à porta de entrada do meu trabalho, e para essa porta voltei. Acendi um cigarro. Observei, estava ali para isso. Muitos celulares apressados, as pessoas pouco os ouviam devido as músicas dos carros eleitorais; funk melodies, sambas-enredo, chamadas de rádio anunciado o pretenso representante. Na esquina oposta apontou um homem que se destacou pelo tamanho, ou pela falta de tamanho.
O diminuto trajava casaco de moletom cinza, cobrindo a cabeça com o capuz que o casaco lhe oferecia. A mochila vermelha e a bermuda bege. Começa a futucar a lixeira de plástico laranja que estava atada ao poste. Concentrei-me ali.
Acha uma latinha de alumínio. Joga-a no chão a amassando com o pé; deixa-a ali retomando a busca. Um guarda-chuva é capturado por ele. Abre-o e percebe – ou percebo eu? – que o tecido preto está em boas condições, mas em sua maioria desprendido dos arames. Verifica as pontas e a flexibilidade das hastes. “Daria para consertar?”, penso eu por ele.
Não sei, pois ele começa a dobrar e redobrar incessantemente as hastes afim de, creio eu, no momento, arrancá-las. Será que, pergunto-me, ele faria uma adaptação no guarda-chuva, diminuindo o comprimento das hastes e, assim sendo, chegando ao diâmetro que protegesse seu reduzido corpo das vindouras chuvas? Viesse a chuva que ele não se umidecia.
As hastes, uma a uma, foram arrancadas e enfileiradas e dispostas do meio-fio ao asfalto. Descansavam ao lado da latinha. Avalia o guarda-chuva semi-desossado enquanto um jovem Justin Biba (não sei o sobrenome dele ainda) passa por ele tentando jogar um papel na lixeira. Permissão concedida. Abre o murcho guarda-chuva e o devolve à lixeira.
Na melhor atitude “serviço completo”, junta o feixe de hastes na mão, pega a latinha e, como se portasse tamborim e baqueta, percussionou três ou quatro repiques no alumínio e rumou para lá, zaticatá; para cá de volta, zaticatau , pá pá... Compunha sua batida. Foi batendo.
Teresópolis, 28 de setembro de 2010.
