
Voltando de Niterói, um amigo meu me deixou na Leopoldina, cruzei as passarelas da Francisco Bicalho correndo, olhando o relógio, suando, mirando a rodoviária Novo Rio e ofegando. Tudo isso para pegar o ônibus que sairia às 14h00 para Petrópolis, onde, em junho de 2006, morava. No guichê, o próximo “carro” era o das 15h00. Sai da rodoviária, comprei dos vendedores de rua a água que gela nos isopores que circundam o local; voltei e esperei nos bancos das plataformas.
Não me lembro o por quê de minha pressa, mas me recordo bem que lia “As Três Irmãs”, de
Anton Tchekhov, e fazia anotações. Na época, bolsista e com muita leitura para a dissertação do mestrado, analisava o teatro intimista dos escandinavos e de Tchekhov. Política, família e emoção. Poder e suas relações de força. Tinha uma hora para gastar lá.
Daquela parte da rodoviária do Rio partem os ônibus que vão para o sul flumimense, Santos, Petrópolis, Costa Verde (Paraty, Mangaratiba, Angra dos Reis) e Teresópolis. Logo mais à direita, em outra plataforma, saem os ônibus para o litoral baiano e Goiânia. Neste dia, como já disse, iria para Petrópolis.
A área em frente aos ônibus para a Costa Verde é abarrotada de turistas que querem se aventurar em Ilha Grande, muitos deles para ativarem o lado Crusoé que está latente em toda a humanidade. Eu lia os diálogos de Olga, Maria e Irina, as irmãs de Andrei Prosorov quando uma voz exaltada chamou a atenção de alguns:
- Não sabe ler, não? Vai ali na frente do ônibus e que você vai ver para onde o ônibus vai!
Com uma delicadeza Neanderthal, o estúpido que gritou expulsou um jovem louro, de chinelos, bermuda, mochila com garrafa d’água nas laterais e uma camiseta branca estampada com a figura de uma praia carioca. Perplexo e possivelmente envergonhado, ele veio em minha direção e, por gestos, mostrava-me o bilhete da passagem. Assim, larguei o livro e proferi meu inglês bobmarleyiano de Trenchtown, oferecendo ajuda.
O jovem era alemão. Só queria saber se o destino dele estava certo porque ele queria ir para Ilha Grande, mas ali estava escrito Angra dos Reis. Expliquei-lhe tudo que não lhe explicaram no guichê. Conversamos sobre a região, embora eu não tenha ido à Ilha Grande, mas Paraty onde já estive, também mereceria uma visita, coisa que ele faria também. Ele me ofereceu um cigarro, Malrboro, onde no verso estava o aviso:
Rauchen tötet, fumar mata, ou algo que o valha. Ele fez algumas anotações no caderno, daquilo que lhe narrava.
Fiz um comentário sobre como a vida é injusta. Ele, da terra onde estava bombando a Copa do Mundo, onde, na minha cabeça, todos deveriam estar, principalmente os alemães que já estavam lá. Mas justamente por haver a Copa lá é que ele viajou porque a cidade onde ele mora ficava perto de uma das sedes, logo, ela estava insuportavelmente lotada. Acho que a cidade era Nuremberg.
Quando o ônibus dele se aprontava para partir, ele me perguntou o que o Neanderthal (talvez alguns Neanderthais fossem mais gentis) lhe dissera. Expus-lhe que ele alegara que você não sabia ler e que fosse para frente do ônibus ler o que nele estava escrito, mas com uma grosseria... (ia falar gótica, em alusão aos bárbaros, mas meu conceito de bárbaro era mais para os civilizados romanos do que para o povos ditos como tais) uma grosseria absurda.
Ele me falou que estava acostumado com aquilo, na Alemanha e em outros lugares a grosseria é pior e, infelizmente comum. Despedimo-nos:
- All right Pieter. Have a nice trip. (tenha uma boa viagem).
- Muito Obrigado (arrastou o agradecimento com simpatia).
- Auf wiedershen (atropelei a despedida em alemão).
No meu caderno, anotei a experiência, mas não sei onde este caderno está.
Itaipava, 14 de março de 2011.