Zelador

Minha foto
...de repente, o que está aqui lhe apetece.

Seguidores

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

CONSCIÊNCIA, MISSÃO E LEI

Filme Polícia,Adjetivo , Romênia,2009.

Foi por causa da resenha do Professor Carlos Magalhães que logo me motivei a ver o filme "Politist adjectiv" que também poderia ser traduzido ou recebido a versão de Policial, adjetivo. Horas depois de ler a resenha poderia assisti-lo pelo Telecine Cult, reprise, 2:15, logo depois do jogo Brasil x Colômbia do Pré-olímpico de futebol.

Recomendo-o a todos, e mais ainda aos que gostam de arte e ciências humanas. Mas sugiro, com veemência, que professores, pesquisadores e alunos das Ciências Sociais, Filosofia, Direito utilizem a película como material didático.

"Mas sugiro, com veemência"? o que eu quis dizer com isso? Como se pode sugerir algo com veemência? Se usasse a expressão "recomendo muito" o sentido ficaria mais brando e, logo, menos repressivo?

O protagonista Cristi, casado, trinta e tantos anos, talvez, é um policial lotado numa delegacia de Bucareste. Digno homem da lei (Moral? Material?, da Constituição? Da Lei em si, se ela existir? Da Consciência?. Ele recebera a missão de investigar, perseguir e flagrar um usuário de haxixe e, naturalmente, prendê-lo; depois ou ao mesmo tempo, procuraria o traficante. Simples. Simples como suas razões no diálogo que tem com seu colega de departamento.
- Salut Cristi.
- Tem um lugar para mim lá onde vocês jogam Futitênis? Quero perder a barriga.
- Não. É melhor você dar umas corridas. Você não joga bem.
- Mas você nunca me viu jogar!
- Nem precisa, você joga mal futebol. Vai nos atrapalhar.
- Nem uma chance?
- Não, é melhor não. Corra, você perderá a barriga mais rapidamente.
- ... tudo bem. Salut.
- Salut.
(Traduzido diretamente do romeno, menos o "salut")

Todavia, os relatórios de Cristi sobre o caso não mostravam um discurso semelhante ao diálogo, bem como, possivelmente, seu sentimento era ainda... vacilante.

"Em vez de prender este garoto, que nada tem de anormal dentro da sociedade que se procura ser ideal, poderia haver uma solução. Quem sabe ir direto ao traficante? Sete anos de prisão para aquele estudante? Até porque, a Europa toda está fumando, em Praga mesmo, e Amsterdã, então?"

A direção de Corneliu Porumboiu , coincidentemente de minha geração, espelhou-se em Michelangelo Antonionni na intensidade das cenas, dando uma impressão de filme "muito parado" dentro do padrão frenético dos filmes policiais e de ação. Entretanto, por isso mesmo que podemos reparar nos detalhes, como se as cenas tivessem saído das folhas de "Memórias do Subsolo", de Doistoiévski ou das descrições de Albert Camus, em "A Queda". É intenso, e muito movimentado para nossas mentes.

Pode parecer parado também porque não há aquela trilha sonora especial para a audiência. A música vem do que as personagens estão ouvindo. Mirabela Dauer, famosa cantora e letrista da Romênia antes e depois do regime comunista, é ouvida por Anca, a mulher de Cristi.

Dá-se a impressão que o casal passa por uma séria crise, mas quando parece que vai se degringolar uma discussão, há troca de gentilezas, aquiescências de opiniões, aceitação de críticas. E nessas conversas entram questões gramáticas e semânticas; filosóficas e literárias sobre a letra da música da, agora para mim famosa - perdoem-me os romenos - Mirabela Dauer. Razão x emoção, concreto x abstrato. Tomismo. Linguística...

O trailer está nos links. Prestem atenção nos diálogos e na música. Língua (limba) latina e sotaque eslavo. Muito interessante. Ah! E a cerveja que ele toma é a Skol europeia!

Multimesc, salut


Reparem no muro atrás. Há uma pichação de Forta Steaua (Força Steaua [Bucureşti]), time de futebol mais popular da Romênia. Mas há também, vocês verão, o símbolo do Chicago Bulls pichado. Achei interessante

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

VOLTEMOS

Está difícil, mas vamos lá.

Moro em Teresópolis e passo as férias em Itaipava onde eu estava na noite do dia 11 de janeiro para o 12. Consegui uma cena maravilhosa para escrever e relatar aqui, dentro do estilo literário que procuro dispor para meus leitores e amigos. Como já havia publicado umas besteirinhas no dia anterior, 10, resolvi esperar mais uns dias, embora tivesse começado a escrever a crônica.

Era sobre a ridícula cena de como consegui ficar preso no banheiro. Pouco antes eu vi um filme na companhia de meu pai, comentamos algumas coisas e nos despedimos, boa noite. Antes de jogar as latinhas no lixo, deixei-as em cima da mesa e fui ao banheiro; encostei a porta porque a lingueta apresentava problemas. Ela faz parte do miolo ou máquina,(coisa que soube depois e ainda não sei o nome daquilo) na estrutura de uma fechadura (perdoe-me pelos cacófatos em forma de rima) e quebrou no momento em que eu, em atitude normal, encostei a porta.

Todas as tentativas de abrir e nada. O barulho naturalmente despertaria meus familiares; felizmente, nenhum deles havia dormido. A presença deles me deixou muito calmo e não me deixasse traumatizado por tal vexatória situação.

Steve McQueen seria minha inspiração. Nesse caso, não sua vida, mas suas personagens em Fugindo do Inferno,Papillon e Inferno na Torre. E não era o caso de se aludir ao Edmond Dantès, de O Conde de Monte Cristo, de Dumas, pois não havia nenhuma vingança em vista.

Recebi, do basculante, as ferramentas para poder desmontar as dobradiças: a única solução encontrada. Martelo e chave de fenda sem a parte do apoio, que faria as vezes de alavanca. As dobradiças estavam bem presas, obrigando-me a me inspirar em McGyver, durante todo o meu processo de liberdade. A falta de jeito não mandou lembranças, ela esta ali, comigo, me atrapalhando. Chovia muito.

Livre, percebendo a chuva, desconectei as tomadas dos aparelhos eletrônicos mais sensíveis, apesar de não haver raios e trovões. Escrevi, fiz palavras cruzadas, ameacei religar a televisão, mas impedido pela nova remessa de chuva, agora com raios-trovões. Dormi no sofá.

Pouco antes das seis, meu irmão acorda e vai se arrumar para ir ao trabalho. “ A que horas passa o ônibus mesmo?”. “ Vinte pra hora, creio”. Às sete ele voltou: “Enchente, a estrada está interditada, ninguém entra ninguém sai. Vou esperar dar umas oito horas e ligar para o trabalho para comunicar a situação.

Todos acordados. Vimos algumas reportagens, mas a energia acabou logo. Nossa primeira notícia foi dada pela moça que trabalha conosco, ligando para o telefone fixo (funcionava). Pensamos se tratar de mais uma enchente, infelizmente comum, na qual os mortos seriam “só” uns desditosos 16, 17; algumas casas invadidas pela água.

O pessoal que limpa a piscina conseguiu chegar aqui em casa, soubemos do trânsito e da situação. A coisa era muito mais séria.
Meus pais e meus irmãos saíram para os respectivos trabalhos. Voltaram no fim da tarde, “Thiago, você não imagina!”. A energia voltou, pudemos ver as imagens, imaginar. No dia seguinte, justamente para consertar a maçaneta da porta, eu vi as imagens. Assustadoras. Lá estive e agi, conforme o que poderia fazer.

A sorte, a boaventura, sei lá o quê, anda comigo. Recebemos milhares de telefonemas. Eu agradeço a todos, sem saber ainda como, a preocupação comigo e conosco.

Sem pieguice, apesar de meu lado racional sempre emperrar meu emotivo, fiquei abalado. O horror ao lado e eu, nós, bem.

Itaipava, 19 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

AÍ CONFUNDE O PESSOAL VI

Confusões da Infância

Cazuza e Lauro Corona: além da semelhança física, posso ter despertado tal confusão por causa do filme “Bete Balanço”, de 1984, onde apareciam os dois. Isso se estendeu até à novela Direito de Amar, quando soube o nome de Lauro Corona.

Dina Sfat e Fernanda Montenegro: é mais confuso saber o porquê dessa confusão. Eu acho que tem a ver com o Paulo José, marido da Dina, e o Paulo Autran, nas duplas com Fernanda Montenegro, principalmente em “Guerra dos Sexos”.

Felipe Carone e Gianfrancesco Guarnieri: o bigode, talvez.

Carlos Drummond de Andrade e Mário Lago: suas caricaturas e algumas fotos

Jovelina Pérola Negra e Dona Ivone Lara: talvez por causa do Império Serrano. Lembro-me de um documentário sobre Jovelina depois de sua morte, em 1989.

David Bowie e Mick Jagger eram dos Rolling Stones, por causa do clipe “Dancing in the Street” que passava na TV RIO, de madrugada até as primeiras horas da manhã, antes da Kombi do seu Roberto passar e me levar para o colégio.

Mário Gomes, Evandro Mesquita e Kadu Moliterno: talvez por afinidades intelectuais.

Paula Toller e Marie Fredriksson (Roxette): loiras e de cabelos curtos.

Billy Idol e Supla: clássica e proposital e também loiros de cabelos curtos, espetados.

Eu gostava muito da música do Roupa Nova, porque cantavam a música “Amante Porfissional”, que é na verdade, da banda Herva Doce. Descobri isso já adulto, num videokê no sempre aludido, Bar Tic-Tac.

Eu era apaixonado pela Lidia Brondi, mas era para ser a Myriam Rios. Mayara Magri, correndo por fora.

(Lembrado por Jordan Dualibe): Ricardo Montalban, o eterno Sr. Roarke da "Ilha da Fantasia" e Adriano Reys, o também eterno médico das novelas, destaque para "Ciranda de Pedra" e "Barriga de Aluguel".

(Freudiana) Na novela “Gabriela”, quando reprisada: Armando Bogus, como Nacib, era meu pai; Sônia Braga, como Gabriela, minha mãe.

E paramos por aí.

Itaipava, 10 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

CUIDADO VANGELIS


Sua mãe, com aquele mesmo sorriso, braços abertos para lhe acolher. Ele estava estranhamente menor, com 11 ou 12 anos, mas com a cabeça, a mente, os pensamentos de sua idade adulta, 26. Sua mãe vinha e ele ia à ela. Mais atrás, porém, uma figura crescia, tomava moldes de uma velha, tão apavorante quanto pequena, vinha crescendo uma silhueta macabra. À medida que a velha superava o tamanho de sua mãe, ultrapassava-a. Começava a ganhar as formas, os semblantes, a voz de seu senhorio, a quem devia dois meses de aluguel e o ameaçava de despejo. Ele olhou para os lados, via o oráculo; e depois, seu pai aparecia com uma foice, sério, forte. Ele berrava e nada saía. Era em grego, era em inglês. Ouvia sua mãe lhe chamar pelo carinhoso apelido: “Vangas”; seu pai, ocultado por uma fumaça, severo e carinhoso: “Vangelis”. E a foice virava machadinha apontada para a figura do senhorio. A velha figura do senhorio lhe falava: “Hey, Sr. Kapatos, é para hoje, e a responsabilidade é sua”. Ele tentava berrar, se explicar, se desculpar de não sei o quê, tentava se destravar, chegar até sua mãe... a machadinha disparou para uma direção qualquer e...

- Ahhhhhh! Matras!

Soltou o grito, curto, algo como “Mãe”, em grego. Recuperou a respiração e se aliviou um pouco, não sabe de quê? Ainda estava sob os cobertores, apesar do aquecimento central de seu apartamento em Old Astoria, Queens, NY. Havia forte luz pelas frinchas de sua janela. Devia ser quase dez da manhã, ou talvez cinco p.m. Esticou-se na cama, saindo da posição fetal, suava. Despertou, afinal, ao sentir o odor dos cigarros que estavam no cinzeiro da cabeceira. Sentou-se na cama. Há um mês, pouco mais, pouco menos, não sonhava daquela maneira. Tentou tatear o interruptor do abajur, desistiu e somente pegou um dos maços que estavam à mesa. Um George Karelias, o cigarro de seu pai, Dimitrios, causa da luta dele contra o câncer; por isso deixou os maços... com ele. Procurou acendê-lo, mas não achou o isqueiro. Levantou-se para ir até à cozinha, um fósforo ou numa das bocas do fogão poderia resolver o problema. Ainda grogue, tropeçou em algo, xingou em grego. Era uma edição em capa dura, bem elaborada e comentada, de Crime e Castigo, em inglês. Livro sugerido por Irina, presente dela, sua namorada russa. Ela chegou aos Estados Unidos pouco depois que ele, três ou quatro anos depois. Mas se conheceram em 2009.

Pegou o livro e o pôs na cabeceira, agora acendendo o abajur, achou o isqueiro, que estava dentro do maço de Camel, seu cigarro. Viu os remédios, a tarja preta aclarada pelo amarelo da lâmpada. Desejou beber algo, mas se lembrou os remédios tinham horários. Sua tia lhe traria mais caixas de Rivotril? Pai e mãe em Larissa, mas seus tios ainda em Nova Iorque, além da comunidade grega, forte. Sua tia compraria mais uma caixa para ele. Seria a hora do remédio? Dr. Kaczinsky, que disse ele mesmo? Não repetiria a tolice de engolir uma caixa inteira e beber Bourbon. Ou foi com vinho? Chega desta besteira:“encare-se, Vangelis”. Que horas seriam?

Ligou o celular, mensagens. Foi ao telefone fixo, a secretária-eletrônica lhe informava onze mensagens. Deixou-as se pronunciar sem as ouvir. Lia o capítulo em que Raskolnikhov estava em vias de assassinar as irmãs Ivanóvna: a cena primorosa do romance de Dostoievski. Justo este, como assim, como não? Foi à geladeira e pegou uma garrafa d’água; queria vodca. Lembrou-se do horário dos remédios e também de sua vida. Será que Irina gostaria do filme Zorba, O Grego, presente que ele guardava para ela para o dia 6 de janeiro? O dia que os cristãos ortodoxos se presenteiam, dia dos reis.

Aproveitou o pensamento, largou o livro foi colocar a trilha do filme Zorba, O Grego, obra musical de Mikis Theodorakis. Abriu a janela, para que todos ouvissem sua Grécia. Sentou-se na cama novamente, apagou o cigarro, olhou a capa do CD e também a do DVD. É impressionante como Anthony Quinn se parece com seu pai, mas ele não tinha nada a ver com Alan Bates. Seria melhor Irina ler o livro em vez de ver o filme? Que tal os dois? Ela veria pelos olhos do diretor cipriota Cacoyannis, e leria as belezas descritas por Nikos Kazantizakis, o autor.

- Onde estão vocês? Odeio a neve! Hellas!!!

Gritou em grego. Acendeu um Camel, depois o apagou e pegou mais um Karalis. Aumentou o som, começou a dançar como Zorba e Basil no filme, como dançavam todos seu familiares e conterrâneos nas festas no Queens. Bateram na porta, o celular tocava. Atendeu o celular, era Gürcan, seu colega turco, na Saint John’s University. Desligou. Começou a dançar. Dançava como nunca. Pararam de bater na porta. Desligou o som. Foi dançando até a porta. Olhou pelo olho-mágico, ninguém. Sentia um frio, uma saudade. Parou, bebeu mais água, largou a garrafa no chão, jogou o cigarro no cinzeiro. Tudo se apagou. Sem mais lembranças. Uma mistura de tudo e nada. De lixo e frio.

Saltou pela janela, tomando distância desde a cama. Um mergulho de profissional, nono andar, 30 metros. Seu corpo fez a curva perfeita no ar. Era o primeiro domingo do ano de 2011.

CLIQUE AQUI E CONTINUE A HISTÓRIA, NA VIDA REAL


Petrópolis, 3 de janeiro de 2011.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

ANTIGAMENTE E OUTRAS MEDIDAS DE TEMPO



Sabemos que falar do tempo requer enormes teses de estudo, textos, conversas e discussões. Entretanto, falarei sobre alguns pontos de termos e expressões relacionados ao tempo em nosso discurso.

“Mas antigamente, meu filho, as coisas não eram assim, eram muito melhores... muito melhores. Você veja bem, qual sua idade mesmo? Nossa, muito jovem ainda, mas veja bem, outro dia mesmo, conversava com a Dona Conceição sobre isso, acho que foi ainda esta semana, ou no início do fim da outra, não sei bem. Isso aqui tudo, quando a gente, eu e o falecido Magela, que Deus o tenha, comprou esta casinha aqui, isso aqui tudo não tinha nada. Era só aquela casinha laranja ali, a de chaminé, o resto tudo verde, floresta. De uns dez anos para cá está assim, cheio de casas. Ai, ai... ô, acho que o cafezinho está pronto.”

Percebemos três noções de tempo muito comuns em nossa linguagem. Duas bem evasivas: “antigamente” e “outro dia mesmo” (algumas variantes, como “agora-pouco”, “agora faz pouco”, “não faz tanto tempo assim” etc.) e outra que apresenta uma precisão científica: há dez anos ou, dez anos atrás.

Outro dia mesmo é possível nos dar leve noção do tempo, não chega a um mês.

Dez anos passados é o tempo exato que uma cidade ou um bairro evoluiu bastante, inclusive dando características de cidade ao que era uma vila, de bairro ao que era apenas uma estrada que ligava dois bairros importantes, de comunidade vertical ao que era uma singela colina, de bairro comercial-popular ao que era somente residencial-elitista-sofisticado.

O uso do antigamente, via de regra, não vem acompanhado do contexto histórico. Isso pode prejudicar a comunicação. O antigamente possui duas constantes, menos matemática do que emocional, abstrata:

ERA BEM MELHOR: Sempre o antigamente era bem melhor; independe da pessoa e de sua história. Uma vez, no balcão do bar Tic-Tac, em Petrópolis, recebia uma aula de Altemar Dutra ou Ataulfo Alves, motivada pela revolta do som que vinha do videokê no segundo andar.

- Agora é só essas músicas aí, funk, pagode, Lulu Santos. Antigamente era bem melhor, tinha seresta, a gente conquistava as meninas com violão, com a poesia.

Aí citou os grandes intérpretes e compositores dos bons tempos. Nesse caso, temos vaga ideia do antigamente do qual ele se refere; é, certamente, o tempo de sua juventude. Mas há casos que o antigamente, dentro de um discurso, varia entre as primeiras aglomerações familiares de australopithecus até, digamos, esses dias mesmo, faz nem um mês. Agora, imaginemos uma narrativa qualquer em que a pessoa diz:

- Antigamente não era assim, as pessoas tinham mais respeito pelas outras, para com o próximo.

Antigamente quando? Que época da história da humanidade vivíamos nesse Falanstério de Charles Fourier, ou na Pasárgada de Manuel Bandeira ou, mais antigamente, a dos persas, clamada por Estrabão? Quando existiu esse paraíso de respeito mútuo? Isso é outro assunto. Passemos para a segunda constante:

JUVENTUDE: Millôr Fernandes já se questionou: “Quando é que a mocidade começou a ficar tão chata e imoral? Não foi quando você completou quarenta anos?”
E em outra oportunidade, já faz um tempo, eu recebi um e-mail com frases do período da Antiguidade Clássica e Oriental, do Alto e do Baixo Medievo, da Renascença Moderna, do Iluminismo, do longo século XIX, da transição o XIX para o XX, do entre Guerras, do pós- Guerra, da contemporaneidade atual ou pós-modernismo, do fim da História, de Fukuyama. Em todas as épocas a juventude foi a bola da vez, conforme uma antiga crônica no Canis Familiares, de 2004, creio. Resumindo todas as frases:

- Essa juventude atual não quer nada com nada.

Um toque de preconceito, rancor e extremo saudosismo. Porque parece que por mais que a vida na juventude de uma pessoa tenha sido sofrida e que em sua idade avançada, 40, 50, 60 anos em diante esteja mais tranqüila, compensando os esforços do antigamente, os bons tempos do antigamente prevalecem de alguma forma.

O homem, o tempo; o estudo do tempo e a sua relação com ele, tempo inventado, tempo natural... é algo fascinante, de infindáveis questões e temas.

Que saudade de alguns pontos do antigamente!

Que no ano-novo, mais uma vez, marco inventado por nosso recente calendário cristão (padrão mundial), possamos nos divertir e nos emocionar com as boas lembranças e com os projetos para o futuro, esse tempo também não sabido.

Itaipava, 27 de dezembro de 2010.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

POUCAS E BOAS 1

1) “Al-Suavited, a equipe tunisiana de vôlei, da cidade de Sfax, faz sua estreia no mundial de clubes, o campeão africano. Vamos à formação inicial: número 12, o grandalhão Oande; o 7, Reternud, atacante de ponta; o outro ponta, 6 Pangst, o polonês; o oposto Subed, com a número 11; Brolium, com a 16, outro gigante e o levantador Ebils, com 2; aí o líbero, Bumshe, com a 15. O técnico Hobions.”

Sabe quando temos que digitar algumas letras para validar nossos comentários em alguns blogs? Então, todos os nomes em destaque foram colhidos desses aplicativos. Pode-se inventar bastante coisa com eles.

2) Meia-noite e meia, por aí, a gente estava lá em casa esperando passar Two and a Half Men, no SBT. De repente, surge um programa de joguinhos onde você, telespectador, participa pelo telefone (preço de uma ligação de celular para São José do Rio Preto).

- Pô, será que vai ficar nessa?
- Não pode ser, deve ser rapidinho, e daqui a pouco passa o seriado.

Atrás da bela moça, que não parava de falar um segundo, havia um painel com cheio de círculos e neles estavam escritos valores que variavam de R$ 100,00 a R$ 1.000,00. A mocinha anunciou que ficaria na nossa companhia a madrugada inteira.

- E o tema de hoje é: animais com a letra C.

Embasbacados com a dificuldade do desafio, em menos de 10 segundos conseguimos dizer uns 15 animais começados com a letra C. Quem acertasse o animal que estivesse no painel ganhava a quantia discriminada E começaram os telefonemas: cavalo, 100 Reais; coelho, 300; cachorro, 200. Percebemos que quanto mais comum o bicho menos o seu valor, é lei da Zooeconomia. O de mil Reais poderia ser o quê? Caranguejo, coala, catatua, castor... Capivara, talvez, o mais nacional e o menos lembrado!

Depois dos três animais vieram as dificuldades da galera que ligava. Uma campainha de telefone de repartição estourava a cada chamada. Camelo, 400 pratas. Aí, a coisa ficou difícil para a população. Uns ligavam e nem sabiam do que se tratava o joguinho, mas a bela e palradora modelo, pacientemente, explicava tudo de novo. Apostavam em coiote, curió, nos animais já escolhidos. Canguru, estranhamente, não constava na lista. Eu juro, pensei em ligar para lá quando dobraram os valores no painel.

- Vamos ligar para essa parada. – eu sugeri. Dois barão nisso já paga os alugueres de janeiro e fevereiro, e o Seu Jorge vai ficar felizão.

- E podemos até comprar outro bujão de gás, um porta galão de água, duas garrafas de Jack Daniels e demais cervejas.

- Podes crer.

Mas...

- Alou quem está na linha?
- Gilberrrto.
- Então, qual o seu palpite?
- Palpite de quê, meu?
- Um animal com a letra C, dê uma olhada no nosso painel...
- Letra C?
- Isso...
- É.. Porrrrco.
- Porco? (buzininha explodindo, errado!) Não, não tem aqui (a modelo não segurou muito bem a gargalhada, mas conseguiu manter a linha). Porco começa com a letra P. Próximo participante!

Nós não conseguíamos ficar nas cadeiras. É difícil rir tanto no mesmo lugar, paradão. O outro participante já estava na linha, mas a mulher também não se agüentava e soltava umas gargalhadas fingindo que ria somente pela simpatia que sua profissão lhe obriga.

Em fim, perdemos o dinheiro e o seriado. O sono chegava, fui para o meu quarto.

Petrópolis, 15 de dezembro de 2010.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O ENTREVISTADO DA VEZ

A página cultural Castelo do Poeta me convidou para uma entrevista e eu a concedi. É uma honra participar de lá. Agradeço a João Lenjob, poeta, pela grata experiência.