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domingo, 5 de dezembro de 2010

MAIS UMA DE "ROCK"




COMBATE

Eu já sabia da polêmica. Um não gostava da opinião do outro sobre Guns ‘n’ Roses (doravante, Guns) ser uma banda rock-farofa. Eles se encontraram com a galera no Bar Arco-Íris, Lapa-RJ. Parte do pessoal iria para a Rio Scenarium, outra iria para o Teatro Odisseia para assistir a uma sequência de bandas de rock. Minha tendência era ir para este último evento, mas alguns me sugeriram ir à Casa Hombu, pois um DJ alternativo seria a atração do local. O preço “accessível”, a cerveja de garrafa e a curiosidade intensa em saber do que se tratava um DJ Alternativo levaram-me para seguir a Terceira Via.

Entrementes, os dois da discussão antiga voltaram a se enfrentar e eu ali, latão na mão, tentando entender deveras o ponto-chave do debate:

- É farofa sim! Todo mundo sabe, todos conhecem até quem não gosta e rock gosta de Sweet Child O’ Mine!
- Não é farofa nada! Algumas músicas podem ser, mas isso não quer dizer que a banda é ruim. Guns é muito bom!
- Tem razão, – eu disse – a banda pode ser farofa, mas pode ter qualidade. Smoke on the Water, Come As You Are, Cocaine e... – interrompido.
- Tudo isso farofa! É farofa!
- A música ou a banda?
- A música... e a banda também! Ah, não sei. Só sei que é farofa!
- Então, - tentei intervir de novo – há um certo reducionismo em definir uma banda ou música de farofa somente e tão-somente por causa de sua popularidade, digamos assim.

Nenhum dos dois me ouviu. Iniciaram uma disputa de quem sabia mais de bandas não-farofas:

- Conhece Boston?
- Claro, e conhece Cinderella?
- Não.
- Tá vendo? E aí, conhece Misfits?
- Também não, conhece Kansas?
- Óbvio que eu conheço! Doghouselords? Fairport Convention?
- Aí não, quem conhece banda é ele aqui – eu, no caso. E Poison? Conhece.

E ainda no caso eu ficava olhado para os dois alternadamente a cada desafio lançado. Só Kid Vinil seria o melhor árbitro de tal peleja. Continuavam:

- Putz, claro, é meio farofa mas é legal...
- Ah! Viu só! E Skid Row?

Aí mandei a questão, na minha vez de interrompê-los. Simulei um acorde de guitarra bem heavy metal:
- E Tchaikovsky? – pléunnn – Conhecem?
- Não...
- Essa não...
- Mas, peraí, já ouvi falar sim... Ah! Bobo.
- Pô, brother, não confunde a gente!
- Pô digo eu, a discussão não iria a lugar nenhum. É a vez de quem pegar a cerveja?
- Sua mesmo.
- Podes crer.

Quando voltei, outros tinham se juntado à roda e a celeuma anterior ameaçava voltar, mas com outros participantes. Entreguei as latinhas para os que me pediram e sugeri:

- Então, procure na Internet a Marcha Eslava, de Tchaikovsky. É meio farofa, muita gente conhece ou já a regeu, até na China, mas tem qualidade. É estilo hardcore melódico. Mas já a música 1812 é heavy metal!

Opa, esquecia-me do DJ Alternativo, que na verdade eram dois. Não só as músicas como o visual de ambos eram alternativos, mas isso será descrito em outra ocasião.

Petrópolis, 5 de dezembro de 2010.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

ORNITOLOGIA DE CAMPO E AR



Aos que não sabem, a rodovia Philúvio Cerqueira Rodrigues está em obras e, por vezes, a viagem é interrompida para, a fim de que, ponham concreto na estrada com o intuito objetivado de, pelo amor de Deus - e todos os outros - consertem e concertem e concretizem a BR-495, de uma vez por todas.

Quando para (verbo parar) para (contração das preposições e artigo) que o concreto exerça sua função, são 40 minutos de "descanso". O ônibus chegou no regressivo 39 minutos e 46 segundos. Aos 38 regressivo, em ponto, estava eu com os pés na estrada fumando um cigarro na companhia do motorista "sobrenome no crachá", como de praxe.

- Ah, mas daqui a pouco vem a chuva, olha como tá quente... abafado.
- Me empresta o isqueiro? Obrigado. Sim, típico desta época, esse mundo tá mudando.

Mormaço. Aquele mesmo, o perigoso: sai desse mormaço menino, quedequê mormaço queima!
E daí, nós, eu e o motorista mais o cara da guarita e outro da coordenação da guarita, sob aquele branco prata do céu... aí a ave... A AVE, ousa voar. O coordenador da guarita se manifesta primeiro:

-Ó o gavião...
E o motorista:
- Ah né não, é urubu, conheço urubu de longe.
E olham para mim, ao qual, automaticamente, olha (olho) para cima:
- Sei não.

Chega um detrás do ônibus, oriundo de um caminhão:
- Ó o gavião... gaviãozinho.

Revolta. Confundem-se as hipóteses, travestidas de teses:

- É não, isso é urubu.
- É nada. Conheço aerobu (sic). O bicho não voa sozinho. E cadê o cheiro de carniça? Nem sinto inhaca. É gavião, dos pequenininhos, olha como ele voa!
- Mas gaviãozinho parece cumurubu, aqui não tem esses não.

Chega outro elemento:
- Ó, espia, o gavião...
- Né não, espera passar aqui por cima... Ualá, viu?
- Vi, é gavião. Urubu quando voa, fica com as asinhas parecidas assim ó, com as mão.
- Alá ("olha lá", e não o Deus do Islã), tá decendo, para encontrar com o bando, é iorubu. Que cê acha que é?
- Eu? - eu mesmo - bom, pelo rasante, é gavião, mas pela cor é urubu.

Tendia para que fosse o gavião, mas surgiram vários urubus nos entrementes. E aquele brilho do mormaço não resolvia nossa ciência. Os que ficam na guarita falaram:

- Tem muito pássaro esquisito aqui, mas esse é gavião. - Disse um.
- Ó, vendo daqui, está mais para urubu.
- E tu, gordinho? - Questão direcionada a mim - é o quê?
- Eu? É o Carcará!
- O quê?

A viagem teve que seguir.

Teresópolis, 23 de novembro de 2010.

sábado, 6 de novembro de 2010

SABE O QUE QUE É, DOUTOR?



SEGREGAÇÃO DO CAPRICORNIANO
Relato de caso

G., 38 anos, cearense do Crato, divorciado, médico, residente nesta cidade (Rio de Janeiro). Trajes em alinho, denotando cuidados com a higiene e aparência, porém, transpirava pela fronte e pelas axilas; leve ansiedade e tensão, apesar de bem humorado. Fala normalmente cadenciada, com breves momentos de excitação nas palavras.

- Sabe o que é, doutor? De repente, de uns tempos para cá, a maioria das pessoas que convivem comigo, meus amigos, colegas de trabalho e até as pessoas que conheço em alguns eventos, congressos, reuniões, todas, doutor, até meus familiares em Fortaleza e no Crato, começaram a falar de astrologia com muita frequência. Não que isso seja problema, sempre falei disso, eu sei o meu signo, tanto no zodíaco quanto no chinês: Capricórnio e Rato, respectivamente; essas curiosidades, sabe como é? Mas veja bem, o assunto de astrologia que chegava no atualmente, não era levado na ingenuidade, na simplicidade; não como uma diversão, nem mesmo como uma coisa séria, mas respeitosa. As pessoas começaram a levar a sério o que pregava esse signo, todos os signos, diziam, previam, sei lá! Elas, essas pessoas antes minhas amigas, já tinham a consciência de todo meu comportamento, de meu caráter, quem sabe até de minha vida, doutor, assim que falava que era de capricórnio. Doutor, o senhor carece de me perdoar, mas esse tema nunca me deixou tão avexado quanto nos últimos dias.

- Como assim? Dê-me algum exemplo.

- Pois não, é aí que ia chegar. Depois do carnaval, uma paciente me perguntou e eu, embora tenha estranhado a pergunta, lhe respondi, “Capricórnio”. Ela se afastou num sobressalto jamais visto por mim em todos esses anos de dedicação à dermatologia. Disse não acreditar que eu, sendo eu como sou, na visão dela fosse capaz de ser capricorniano. Teve um outro caso semelhante a esse no consultório, mas dessa vez com um jovem, acho que com 28 anos, que se disse decepcionado comigo. Aí, eu lhe perguntei: por quê, cabra? Claro que não foram com essas palavras, e ele me disse que ser de elemento terra, e regente saturno, eu era um soberbo, arrogante. Mas até ali, não liguei tanto, pois logo lhe indiquei um colega de especialidade igual a do senhor, doutor, pois antes não conhecia seu respaldo e sua competência.

- Obrigado, mas continue.

- Claro, doutor. Agora vem a parte interessante. O tempo passou e comecei a ver só essas coisas de astrologia, conforme já lhe disse. Com essas duas ocasiões, passei a me informar mais sobre os signos, coisa que jamais fizera. Li muita coisa sobre o zodíaco e o meu signo, tudo que ele representa, proporciona, ajuda ou atrapalha, e a sua conexão ou repulsa com que outro signo que ele se dá bem ou se dá mal e só me fez confirmar aquilo que sabia: que poucos são astrólogos decentes, e que metade das coisas que dizem que sou são coincidentes e as outras nem passo perto de ser. Tudo isso bem embasado em todos meus simbolismos, não levei nada ao pé da letra, como fizeram meus então novos inimigos. Mas a coisa começou a ficar incômoda quando em um evento da sociedade, evento nacional, as pessoas me evitavam após saberem de minha, digamos, predestinação. Outro dia, marquei um encontro com uma mulher linda, que conhecia da enfermagem, para tomar um chopinho, ali no Catete; e a conversa ia numa toada maravilhosa, a mulher estava caidinha por mim, acreditava eu. Veio esse assunto de novo e falei à senhorita: você tem certeza que quer entrar nessa prosa? Por quê, algum problema? Vai me dizer que você é ariano? Sou não, não totalmente, sou descendente de negros também, além de índios. Aí ela disse, doutor, que não era desse assunto preconceituoso de que falava, essa coisa de Hitler, era sobre astrologia, todo mundo se liga um pouco no zodíaco, em astrologia, palavras dela. Ela quis dizer arietino, de Áries, como eu já sabia. Falei que não, ela relaxou, aspirou forte, aí falei que era de capricórnio, e ela voltou a se retesar, fechou o semblante, ficou até feia, coitada. Tá rindo, doutor? é sério que digo, ficou feia e bem mais velha.

- E depois...

- Depois, você dificilmente vai acreditar. Ela simulou chamada no celular, foi ao banheiro, ficou lá um tempo, acabei meu chope confabulando de que quando ela voltasse era para pedir a conta. Ela veio do banheiro se ajeitando, pondo a bolsa à tiracolo, esvoaçando o cabelo, era a dica para eu pedir a conta, e assim o fiz, doutor. Ela se sentou e disse, bom, olha ocorreu um imprevisto, me desculpe, vamos pedir a conta? Eu falei, já pedi, mas pode deixar que eu pago. Ela tremeu e me olhou com uns olhos que não quero ver de novo em minha vida. Falou ela: eu sabia...

- Sabia de quê?

- Vai ouvindo, doutor. Ela disse que sabia que eu era assim, pessimista, fatalista... frívolo. Mas nem minhas qualidades, que todos os signos têm, ela falou. Talvez ela falasse de minha liderança, minha confiabilidade, pé-no-chão...

- Humm...

- Sabe, doutor, acho que a partir de agora vou falar que sou peixes, sou pisciano. Vamos ver no que vai dar! Às vezes até acho que é coisa de religião, doutor. Sabe, você sendo peixe, virgem, essas coisas mais puras, posso ter mais aceitação. Mas bode, mas veja, bode, doutor? não pode ter aceitação mesmo. É um símbolo do capeta, de Baco! Cabra d’água. É ou não é esquisito, doutor?

- Absolutamente normal, mas, seu tempo acabou e ainda temos muito que conversar. Fique tranquilo. E continue dizendo seu signo. Astrologia não é um grande problema.

Petrópolis, 6 de novembro de 2010.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

JULIO, JÁ QUERIA FALAR SOBRE TI HÁ UM TEMPO


Mas tu te antecipas e me dás de presente de aniversário em 1981, sem eu saber, este conto. Ah, meus três anos de idade.

"Do livro "Papéis Inesperados" (Editora Civilização Brasileira - 2010, 487 páginas, tradução de Ari Roitman e Paulina Wacht) que estou lendo no momento e consiste de uma seleção de textos inéditos e dispersos escritos por Julio Cortázar (1914 - 1984) ao longo da vida, encontrados, em sua maioria, numa velha cômoda. Compilação de Aurora Bernárdez, viúva do escritor, e Carles Álvarez Garriga. O "conto-poema" abaixo, tão inserido no lirismo fantástico de Cortázar foi publicado somente no jornal mexicano "Unomásuno" em 11 de abril de 1981."

PERIPÉRICAS DA ÁGUA
(Julio Cortázar)

Basta conhecê-la um pouquinho para entender que a água está cansada de ser líquido. Prova disso é que na primeira oportunidade se transforma em gelo ou vapor, o que tampouco a satisfaz; o vapor se perde em absurdas divagações e o gelo é tosco e desajeitado, fica quieto onde pode e de modo geral só serve para dar vivacidade aos pinguins e aos gin and tonic. Por isso a água delicadamente escolhe a neve, que anima a sua mais secreta esperança, a de fixar para si mesma as formas de tudo o que não é água, as casas, os prados, as montanhas, as árvores.
Acho que deveríamos ajudar a neve em sua reiterada mas efêmera batalha, e que para isso seria necessário escolher uma árvore nevada, um esqueleto negro sobre cujos incontáveis braços vem se estabelecer a branca réplica perfeita. Não é fácil, mas se ao prever a nevada serrássemos o tronco de forma que a árvore se mantivesse em pé sem saber que já está morta, como o mandarim memoravelmente decapitado por um verdugo sutil, bastaria esperar que a neve repetisse a árvore em todos os seus detalhes e então retirá-la para um lado sem a menor sacudida, num leve e perfeito deslocamento.
Não creio que a gravidade desmanchasse o alvo castelo de cartas, tudo aconteceria como numa suspensão do vulgar e do rotineiro; em um tempo indefinível, uma árvore de neve sustentaria o sonho realizado da água. Talvez fosse destruída por um pássaro, ou o primeiro sol da manhã a empurraria para o nada com um dedo morno. São experiências que deveríamos tentar para que a água fique contente e volte a encher as jarras e copos com a alegria borbulhante que por ora reserva para as crianças e os pardais.


Graças a eles: Alexandre Kovacs e Ana Letícia, que me enviaram o texto.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA


O título acima pode se encaixar em diversos ocorridos dos quais fui turista em minha terra natal. Vítima, pois, do estereótipo, do padrão engessado pelo cientificismo novecentista europeu e espalhado pelo mundo com o aval estadunidense.

Tais experiências revelam não somente o quanto esses padrões étnicos são esdrúxulos no Brasil, como também, paradoxalmente, estão incrustados em nosso pensar e perceber. Em breve posso recuperar algumas crônicas do Canis Familiares – antigo blog onde contribuía – e expor algumas dessas experiências.

Peguei o título “Estranho numa terra estranha”, de um livro que minha saudosa tia e madrinha me sugeriu quando eu andava pelos 14-15 anos. Passava uma das férias no sítio de Areal-RJ, que era de minha avó materna.

Ao passar pelo corredor e sempre me deparar e vislumbrar com os livros, ela, que também passava por lá, resolveu pegar uns dois ou três para minha diversão. Um deles era “Strange in a Strange Land”, Estranho numa terra estranha. O problema é que havia a MTV, coisa que não tinha em minha casa em Petrópolis; e, apesar de à época já estar no intermediário de inglês, não tinha “raça e moral” (ou seja, vontade) para ler um romance na língua de F. Scott Fitzgerald.

Lembro-me da capa daquele romance, em estilo livro de bolso. Sobre um fundo vermelho, com planícies e montanhas beges, surgia um corpo antropóide azul, mais parecendo um espectro. Ela me explicou que a trama se passava em Marte. Hoje, com o “Advento do Internet”, sei que o autor é o norte-americano Robert A. Heinlein, que lançou o livro em 1961. Fazia parte do movimento da Contracultura, do movimento hippie. E seu título é também inspirado no livro Êxodo, da famosa Bíblia.

Pois então.

Em setembro de 2008 participava do Congresso Internacional de Psicopatologia Fundamental, que foi em Niterói. Fui acolhido na casa de um grande amigo em Copacabana. Havia chegado do primeiro dia de congresso, sexta-feira, às oito horas e em tal dia resolvi rever alguns pontos de minha palestra, que seria no domingo de manhã, e beber alguma coisa ali pela Rua Inhangá – local de minha primeira residência – ou no máximo chegar a um boteco onde pudesse escrever alguma coisa, até quando a cerveja me permitisse. Meu amigo e sua esposa tinham outro compromisso, digamos, mais punk rock.

Fiquei mesmo no balcão do bar do Ceará, bebendo minha cerveja, conversando com o pessoal que encararia a coleta de lixo a partir da meia-noite, e falei também com demais campeões sobre assuntos relacionados a viagens, geografia humana e características regionais do Brasil. As cervejas me impeliram para fazer um pequeno circuito por alguns bares ao longo daquela parte da Barata Ribeiro. Entre um e outro, passaria por um grupo de seis ou sete pessoas, que rumavam, possivelmente, para uma boate, devido às suas vestimentas. Conversavam em uma língua indecifrável e, enquanto tentava pegar uma palavra que me indicasse pelo menos a origem linguística, uma das moças do grupo vem ter comigo:

- Oi, tu moras aqui?
(Era português que falavam)
- Não, mas posso te dar alguma informação. – E outra menina me pergunta:
- Sabes onde há um casa de ........... (não entendi).
- Casa de quê?
Elas me explicaram, continuei não entendendo, e, assim sendo, deduzi que seria uma boate. Indiquei a “Mariozinho”, não sabia se ainda funcionava, mas eles já haviam ido para lá e falaram que não gostaram porque tinha que ter um convite (filipeta), mesmo que eles quisessem pagar. Indiquei, pois, um bar-boate chamado “Clandestino”, pouco mais para frente de onde estávamos, e me ofereci para ir com eles até lá.

Quando perguntei de onde eram, acertei. Angola. Só um casal era de Cabo Verde e outra menina, carioca, não sei por que não foi ela que me perguntou. Aí veio toda aquela minha conversa:

- “É uma honra tê-los aqui em meu país, sejam bem vindos, irmãos de Atlântico, irmãos de história. São de Luanda? Ah, Melange. Não, nunca visitei Angola, infelizmente. Nem Cabo Verde, vocês são de Praia? Ah, não, Mindalo, é a capital cultural, digamos assim. Manuel Lopes, grande escritor das ilhas.”

Falei também de onde era, onde tinha nascido, onde morava, onde morei, até que chegamos à porta do local. Despedi-me deles sem sucesso. Acabei entrando no Clandestino, que, na verdade, sempre tem boas bandas ou bons DJs. Havia um razoável fila. Nela me falaram do que faziam. Duas estudavam na UFRJ, assim como a carioca, o casal era turista, e os outros, com os quais não falei muito, pareciam ser imigrantes somente, mas um deles falou que era engenheiro.

Ah! Ia me esquecendo da questão etnológica, todos eram negros ou mulatos, assim como o segurança que nos pedia os documentos. Devia ser novo no ambiente, pois estranhava os documentos vermelhos, carteira de estrangeiro residente. Conferia-os minuciosamente. Na minha vez, embora estivesse com a carteira de identidade, verdinha, à mão, ele me pediu, num sotaque de Mumbai.
- Passport!
- Ih, mermão, está vencido desde 2006. Tenho só a carteira de identidade mesmo.

Petrópolis, 18 de outubro de 2010.

domingo, 10 de outubro de 2010

REPIQUE


Aqui nos – aindabem – trópicos: solstícios e equinócios mudam muito o clima, que já é, coitado, maluco hoje-em-dia desde de uns tempos atrás. Complicam nosso vestir quando a chuva sem aviso substitui o sol que antes um pouco se fazia imponente. E eu, que não me agrado de guarda-chuva(s)? E que dirão os alérgicos dessas viradas de tempo?

Era a chuva que ameaçava voltar. Peguei um café em copo de plástico na Taberna Guaíra, que está em frente à porta de entrada do meu trabalho, e para essa porta voltei. Acendi um cigarro. Observei, estava ali para isso. Muitos celulares apressados, as pessoas pouco os ouviam devido as músicas dos carros eleitorais; funk melodies, sambas-enredo, chamadas de rádio anunciado o pretenso representante. Na esquina oposta apontou um homem que se destacou pelo tamanho, ou pela falta de tamanho.

O diminuto trajava casaco de moletom cinza, cobrindo a cabeça com o capuz que o casaco lhe oferecia. A mochila vermelha e a bermuda bege. Começa a futucar a lixeira de plástico laranja que estava atada ao poste. Concentrei-me ali.

Acha uma latinha de alumínio. Joga-a no chão a amassando com o pé; deixa-a ali retomando a busca. Um guarda-chuva é capturado por ele. Abre-o e percebe – ou percebo eu? – que o tecido preto está em boas condições, mas em sua maioria desprendido dos arames. Verifica as pontas e a flexibilidade das hastes. “Daria para consertar?”, penso eu por ele.

Não sei, pois ele começa a dobrar e redobrar incessantemente as hastes afim de, creio eu, no momento, arrancá-las. Será que, pergunto-me, ele faria uma adaptação no guarda-chuva, diminuindo o comprimento das hastes e, assim sendo, chegando ao diâmetro que protegesse seu reduzido corpo das vindouras chuvas? Viesse a chuva que ele não se umidecia.

As hastes, uma a uma, foram arrancadas e enfileiradas e dispostas do meio-fio ao asfalto. Descansavam ao lado da latinha. Avalia o guarda-chuva semi-desossado enquanto um jovem Justin Biba (não sei o sobrenome dele ainda) passa por ele tentando jogar um papel na lixeira. Permissão concedida. Abre o murcho guarda-chuva e o devolve à lixeira.

Na melhor atitude “serviço completo”, junta o feixe de hastes na mão, pega a latinha e, como se portasse tamborim e baqueta, percussionou três ou quatro repiques no alumínio e rumou para lá, zaticatá; para cá de volta, zaticatau , pá pá... Compunha sua batida. Foi batendo.

Teresópolis, 28 de setembro de 2010.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

DEMOCRACIA BRASILEIRA

Ouvi diversas opiniões demonstrando insatisfações iradas quanto ao processo eleitoral democrático em nosso país.

Excetuando as raivas e rancores personalíssimos contra candidatos e quanto à própria vida do opinante, o que, infelizmente, mudava um pouco o foco da discussão, mas não deixava de ser avaliado, muitas das conversas pessoais começavam pelo estarrecimento do interlocutor em descobrir que não seguia a linha de pensamento que ele imaginava que eu seguisse. Viva o estereótipo.

Foram de fontes muito variadas, chegando até a questionarem a democracia por excelência. As opiniões vieram, majoritariamente, de eleitores que viram Serra e Alckmin perderem as eleições para Lula, respectivamente, nas eleições de 2002 e 2006.Daqueles que têm uma série de medos. E muito embora o próprio Fernando Henrique Cardoso, recém ex-presidente de então, dissesse que a eleição de Lula fosse uma vitória da democracia, pipocavam o desejo declarado do retorno à ditadura militar.

Desnecessário explicar o que é democracia para os que aqui vêm. Desde de sua etimologia até as versões de democracia apresentadas à humanidade ao longo de nossa história, mediante os discursos ideológicos que camuflam autoritarismos e oligarquias, parece que cada um tem seu próprio conceito de democracia.

A emoção, o sentimento e o inconsciente, não têm muito lugar no discurso político, ou, melhor dizendo, quando se trata de política conforme é reportada pela imprensa, como uma seção e não como ciência ou arte. Falar de política ainda traz a ética, a moral, a missão pétrea e tenaz, o “tudo ou nada”, “ bem e mal”, como norteadores do discurso.

Uma análise de conjuntura, uma olhada no processo histórico, social e político do Brasil (e também da Iberoamerica) e uma reflexão sobre o sentimento de classe – ainda que a luta de classes seja desconsiderada em muitos discursos políticos atuais – não são ponto tomados como devida parte de uma dialética, para uma discussão. E embora fosse dialética, ainda faltariam ponderações sobre uma terceira ou quarta visão.

O interregno de 1985-89 foi capaz de nos dar uma constituição e uma eleição direta. Forma e matéria para uma democracia, ou seja, Constituição cidadã e eleições diretas baseadas na isonomia (todos podem votar, sendo o voto secreto, e são obrigados a comparecer às urnas [ponto para discussão]) e na isegoria, cada voto vale um. Neste espaço vejo que não caberá, porém, as discussões e as considerações sobre a cidadania da Constituição de 1988 e a transparência das Eleições de 89.

Eleito Collor, dois anos foram suficientes para que houvesse o impeachment, que pelo termo em inglês tem a aprovação da democracia estadunidense (o que ainda é bom lá parece ser para nós cá); assume o vice, Itamar Franco. Foi muito importante um vice assumir e terminar seu mandato.

Novas eleições e, pelo voto direto, democrático, FHC, na nova linha Social-Democrata (uns chamam de neoliberalismo) assume a presidência. Luta pela reeleição, emenda-se a Constituição, é reeleito. Emenda Constitucional no. 16 do Capítulo IV, art. 14, §5º.:
Art. 14 - A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante:(...)

§ 5º - O Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido ou substituído no curso dos mandatos poderão ser reeleitos para um único período subseqüente.
(redação da E.C. nº 16, de 04.06.97).

(texto anterior)§ 5º - São inelegíveis para os mesmos cargos, no período subseqüente, o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido, ou substituído nos seis meses anteriores ao pleito."

Nenhum golpe visível.

Continuando o processo democrático, Lula é eleito e reeleito nos pleitos sequentes. E no fim do mês de outubro deste ano, de novo, poderemos escolher o presidente, ou Dilma Roussef, ou José Serra; apesar do STF, apesar da imprensa que toma parte no processo eleitoral, apesar das alianças, apesar da... política.

Portanto, onde é que cabe a revolta sobre a democracia eleitoral brasileira? Será que a democracia só é válida se for o seu candidato o eleito?

Não gostar do que representam Lula, FHC, Dilma, Serra e qualquer candidato a nos representar é normalíssimo e há de ser divulgado sempre... numa democracia.

Petrópolis, 4 de outubro de 2010.